Embora aposte na mesma etnografia geek retratada em The Social Network e avance na epistemologia do discurso das finanças exumado em The Big Short, o lépido BlackBerry, que representou o Canadá na luta pelo Urso de Ouro de 2023, não sabe cartografar o Mal como David Fincher fez, nem consegue ricochetear pela gramática fílmica como a comédia de Adam McKay era capaz de realizar. Isso não significa que a longa-metragem de Matt Johnson, realizador de Operation Avalanche” (2016), não tenha arejado a sufocante busca da Berlinale por visões antropológicas da opressão. Oprimidas, no bem-humorado painel de época de Johnson, são todas as pessoas que, em todo em mundo, gastaram dinheiro para comprar o primeiro smartphone do mundo, batizado com o mesmo nome do título empregado por Johnson. Ele também atua – muito bem, aliás – na produção, no papel de Doug, o nerd que ajudou na criação do aparelho.

Gerir elencos com maestria, deixando os intérpretes livres para apostar em composições fora de parâmetros arquetípicos, é a principal destreza de Johnson, como se percebia em The Dirties (2013) e como se nota em BlackBerry. Apesar de Jay Baruchel, rosto de Hollywood, ser usado como “O” chamariz das plateias para o filme, quem brilha mesmo na saga da génese dos smartphones é Glenn Howerton (de The Strangers), impecável na interpretação do furioso Jim Balsillie, um executivo fracassado que fareja pepitas de ouro ao pensar sobre o protótipo de um telefone capaz de fazer tarefas antes só esperadas num computador. O já citado Doug e o seu parceiro Mike Lazaridis (Baruchel) são os responsáveis por essa engenhoca, mas não têm traquejo social para fazer dela um produto, pois revelam-se incapazes de empregar o seu conhecimento de Informática em estratégias de marketing. É Balsillie quem fará isso, passando por cima de tudo e de todos feito um trator.

Esse “passar por cima” envolve uma série de abusos de Poder e de manipulações dos códigos do investimento em ações. Cada golpe dele é explicado de modo detalhado, mas sem um didatismo forçado e sem as digressões hilariantes do cinema de Adam McKay. Tudo o que se vê em BlackBerry é mais económico, mais conciso, com foco no impacto que a tramitação mercadológica tem sobre a amizade de Doug e Lazaridis, que, cena a cena, vai entrando em ciclos de decadência, inclusivamente física.

É pena que a direção de fotografia não tenha se preocupado em revisitar os anos 1990 e o início dos 2000 com uma engenharia de luz e de cor mais afeita à reconstituição de época, incorrendo num trabalho burocrático. A montagem, agilíssima no terço inicial, perde o fôlego conforme os protagonistas caem num fosso moral. Há, contudo, um pico de excelência na narrativa, de novo circunscrita à direção dos atores, envolvendo a entrada do veterano Michael Ironside em cena. Ele encarna um gerente que consegue ser tão feroz quanto Basillie. A sua ferocidade vai ser essencial na construção de uma linha de aparelhos que prometia o Céu, mas não galgou voo.

Mesmo com os seus defeitos e a queda de ritmo, “BlackBerry sinaliza para a indústria dos festivais que o Canadá tem novas cabeças para criar narrativas de espírito pop, sem deixar de lado a ambição estética. Nem a ironia política.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
blackberry-a-historia-do-precursor-dos-smartphones“BlackBerry” sinaliza para a indústria dos festivais que o Canadá tem novas cabeças para criar narrativas de espírito pop, sem deixar de lado a ambição estética e a ironia política