Tal como Danielle Arbid e o seu “Paixão Simples“, a franco-alemã Emily Atef entra por território complexo, cheio de armadilhas e clichés na adaptação ao cinema do romance de Danielle Krein, “Someday We’ll Tell Each Other Everything”. E armadilhas porque esta história de amor entre uma jovem de 19 anos, Maria (Marlene Burow, sensacional) e um homem grotesco, Henner (Felix Kramer, implacável), com o dobro da sua idade, daria panos para mangas caso fosse assinada por um homem (“male gaze”).

Pois bem, a própria Atef admitiu que isso seria suicídio nos tempos que correm, não tanto pelo movimento #metoo em si, mas por tudo o que a seguir veio com ele. Impassível, a cineasta avançou com o projeto e até clama que ele é inatacável devido à liberdade que a sua protagonista tem para explorar a sua sexualidade, ainda que no final salte para os olhos do espectador uma velha fórmula de amor impossível e trágico.

Passado no verão de 1990 (com uma fotografia marcada pela subtileza da imagem um pouco granulada), logo após a queda do muro de Berlim, no interior da antiga Alemanha Oriental, o filme acompanha em detalhe está jovem afastada da mãe por questões financeiras, e que mora com um namorado com ambições no mundo da fotografia na quinta onde habitam os pais dele. É nesse ambiente familiar (ela é considerada parte da família e a filha que nunca tiveram) que ela se envolve num caso apaixonado, lascivo e de submissão sexual (“faz o que quiseres de mim”) com Henner, uma figura misteriosa mas charmosa da região.

O pano de fundo de tudo isto são os momentos imediatos à queda do Muro de Berlim, com os cidadãos da antiga RDA a ficarem extremamente vulneráveis economicamente. Mas se a beleza dos reencontros, que agora são novamente possíveis com a união geopolítica alemã, dão ao filme uma dimensão dramática extra de felicidade, harmonia mas também alguns problemas, é no afastamento mental de Maria e do namorado, e a consequente fascinação por Henner que reside o “Core” do filme, com as palavras a serem substituídas pela mais pura carnalidade. Entra então em cena o poder do toque e a brutidão, ferramentas chave num conto que faz o paralelismo entre a sua história de amor e a união das duas alemanhas.

Atef filma tudo com alguma maestria, capturando todo o mundo de incertezas de diferentes gerações em relação ao futuro, mas principalmente as de Maria, presa entre a gratidão e sentimento de culpa perante namorado e a família dele, e uma paixão que teima que será para sempre.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
someday-well-tell-each-other-everything-amor-no-pos-queda-do-muro-de-berlimAtef filma tudo com alguma maestria, capturando todo o mundo de incertezas de diferentes gerações em relação ao futuro.