Aclamado por filmes como “Ten Canoes” e “Charlie’s Country“, o cineasta holandês-australiano Rolf de Heer regressa com “The Survival of Kindness“, um objeto cinematográfico que encaixava perfeitamente nos festivais de Roterdão ou Locarno, Funcionando como uma verdadeira instalação artística, através de uma narrativa de sonho/pesadelo/delírio que foge ao tradicional storytelling e ao poder da palavra, “The Survival of Kindness” concorre ao Urso de Ouro.
Na verdade, apesar de escassas, as palavras existem nesta alegoria explícita ao racismo, mas que não esquece – com igual força – os tempos de pandemia e pestilência. Porém, a escolha do cineasta em não as decifrar (legendar) faz do seu projeto profundamente simbólico um ensaio fundamentalmente visual.
O ponto de partida de tudo, para além de guerras hercúleas entre formigas de espécies diferentes num árido deserto da Tasmânia, é BlackWoman, uma negra enjaulada e deixada ao abandono no meio de nenhures. Aos dias de intenso sol que a fustigam nesta condição precária juntam-se transições para um céu noturno estrelado que emite vibrações transcendentais, as quais servem de partida para a libertação da mulher pelos seus próprios meios, seguindo esta, posteriormente, por caminhos trilhados e marcados pela violência, discriminação e perseguição na sua caminhada por um mundo desolado.
Com uma construção cénica limitada, embora impactante no mapeamento geográfico das adversidades, e claras limitações dramáticas de boa parte dos atores secundários “The Survival of Kindness” mostra-se apenas e só um trabalho que vinga exclusivamente na sua forma conceitual e não empírica.
E se não abandonamos o filme quando saímos da jaula com a protagonista é porque Mwajemi Hussein entrega uma prestação magnética e de forte índole corporal, levando-nos consigo numa jornada pelos males do mundo que se repetem vezes sem conta sem existir uma real mudança.




















