Por esta altura do campeonato será escusado dizer que a Marry Harron, que nos últimos anos tem invadido os cinemas com filmes rasos e banais (como o “Culto de Manson”) está longe dos “tempos áureos” de “American Psycho”, “I Shot Andy Warhol” e até o notoriamente subvalorizado “The Notorious Bettie Page”. Porém, assistindo a forma ligeira, estereotipada e formatada de mais uma obra de cariz biográfico em que se aventura, quase que nos apetece dizer que a cineasta se rendeu à banalidade e à linguagem de TV que nos últimos anos tem aprofundado, o que choca mais quando estamos perante a história de um artista surrealista.
Ora visitando terreno constantemente desbravado das biopics, onde constantes flashbacks são entrecortados pelos momentos finais da vida do artista, ora fazendo uma incursão como obras como “Me and Orson Welles”, onde acompanhamos a vida de Dali pelos olhos de um jovem que o segue fervorosamente, o filme de Harron nunca sai de uma estranha zona de conforto comercial, não escapando do didatismo com as mesmas doses que entra pela louca, mas igualmente cheia de lugares comuns, vida de festa do artista.
Nesse prisma, o novato Christopher Briney, no papel de um rapaz que trabalha para uma galeria de arte mas que se transforma num São Sebastião para Dali, numa referência ao quadro de Andrea Mantegna, nunca consegue conquistar completamente o espectador, sendo totalmente eclipsado do ecrã quando um Ben Kingsley mais comedido do que se esperaria, uma Barbara Sukowa avassaladora como Gala, a musa e esposa do artista, ou até mesmo Suki Waterhouse, como uma modelo inspiradora, surgem em cena. Na verdade, “Daliland” parece querer ser um pouco de tudo, mas nunca aprofunda nada, mostrando desde o génio criativo à fragilidade emocional e total dependência perante a sua “musa”, enquanto funciona igualmente como uma espécie de coming-of-age ao estilo “Almost Famous”.
Não ajuda em nada disto o trabalho de fotografia de Marcel Zyskind, de uma ausência de personalidade gritante, nem a montagem ultra-padronizada que Alex Mackie aplica, dando a “Daliland” um aspecto muitas vezes de telefilme.
No mais, há aqui ou ali um rasgo de vigor por parte de Harron, mas “Daliland” nunca se afigura como uma biopic completamente conseguida, mas um trabalho que se vai afundando pela falta de ambição e arrojo técnico (guião, fotografia e montagem), transformando-o num objeto completamente banal, para ver e esquecer.
E, mais uma vez, quando temos um filme sobre Dali e com o elenco que aqui se reuniu(onde até Ezra Miller faz de Dali mais novo), tudo em “Daliland” soa como uma oportunidade perdida, ficando assim apenas mais um biopic com os mínimos olímpicos para sobreviver à sua duração.





















