O cinema da luso-francesa Cristèle Alves Meira sempre vagueou entre o documentário e a ficção, e essa natureza, com pequenos apontamentos biográficos e um elenco repleto de não-atores, sente-se do primeiro ao último minuto deste “Alma Viva”, um dos objetos cinematográficos mais peculiares e interessantes do ano, que coloca Trás-os-Montes como fonte de inspiração primordial para um certo cinema com elementos de género que claramente está a fermentar em Portugal. 

Pegando nos tradicionais exercícios de memória e ligação entre diferentes gerações, numa viagem às raízes para se entender o que se é e de onde se vem, que o cinema português aprofundou nos últimos anos  (de “Metamorfose dos Pássaros” a “O Homem do Lixo”), olhe-se agora para “Alma Viva”, “Restos do Vento” e a animação “Os Demónios do meu avô”. Todos eles, em desenvolvimento durante largos anos, mas lançados em 2022, fazem a ponte entre diferentes gerações; contém elementos e códigos do cinema do suspense e horror, muitas vezes tocando no que a ciência não consegue explicar; e passam-se todos na região de Trás-os-Montes. E Gabriel Abrantes, outro cineasta português da nova geração, deverá ser o senhor que segue na lista, já que há uns anos foi anunciado que estava a filmar um filme de horror na província histórica portuguesa. 

Mas apesar de pontos cardeais em comum, todos estes filmes, com várias singularidades alimentadas por histórias pessoais, possuem ainda o dom de atravessar as barreiras da sua sinuosa localização e mostrar-se universais. Sim, vive-se e respira-se Trás-os-Montes, mas o contado ao espectador (quezílias de vizinhança, tradições antigas em confronto com a modernidade, o emigrar para escapar a uma certa pobreza/interioridade, ligação entre avós e netos) não é um exclusivo português, mas um fenómeno universal.

Por isso mesmo, impressiona esta primeira longa-metragem de Cristèle Alves Meira, um objeto singularmente áspero que entre o naturalismo e o mágico nos conta a história de uma criança emigrada, Salomé, que no habitual regresso a Portugal para as férias de verão da família, vê a sua avó, com quem tinha uma forte ligação, morrer. Mais que um fim ou um corte com a ancestral, a morte é um princípio, já que a pequena começa a ser assombrada pelo espírito daquela que na pequena aldeia onde vivia era vista como uma bruxa, ganhando paralelamente uma nova maturidade (é também uma história de amadurecimento) na descoberta de velhas rivalidades e conflitos familiares que explodem durante o processo de luto.

Drama, suspense e (até) horror misturam-se organicamente num objeto fotografado com maestria por Rui Poças que nos leva ao terreno do “Extra-Ordinário”, “um indício de ficção fantástica que não se explica, rompendo com o ‘sobrenatural’“, isto enquanto o guião, escrito pela própria Cristèle, oferece de forma doseada elementos de humor – tão fora da caixa, como familiares – que aliviam a tensão e peso de uma narrativa que poderia facilmente descambar num exercício de excessos  melodramáticos ou da maquinaria de género.

O resultado é um filme ímpar e uma das melhores estreias em longas-metragens que o cinema português viu recentemente. E a rugosidade, um certo tom “tosco” que o filme orgulhosamente exibe, é apenas reflexo de um caos organizado de índole autoral que joga mais a favor que contra o filme. 

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
Rodrigo Fonseca
alma-viva-transmissao-entre-geracoesImpressiona esta primeira longa-metragem de Cristèle Alves Meira, um objeto singularmente áspero que entre o naturalismo e o mágico