Já com uma carreira de 20 anos no cinema, onde se incluem “Regresso à terra” (1992), “Senhora aparecida” (1994), “Seda é um Mistério” (2003) e “O arquiteto e a cidade velha” (2004), a realizadora e antropóloga Catarina Alves Costa, que este ano estará em destaque no Family Film Project, apresentou em estreia no Doclisboa o seu mais recente trabalho, “Margot”, projeto de longa data na qual traça um retrato de Margot Dias, pianista, etnomusicóloga e realizadora etnológica portuguesa de origem germânica que, entre 1958 e 1961, integrou quatro missões etnográficas ao extremo Norte de Moçambique.
Pegando em muitas dessas imagens e registos visuais e sonoros únicos da cultura maconde, o filme faz um duplo exercício: contar-nos um pouco mais sobre esta figura, recorrendo às palavras da própria, interligadas com as suas imagens, um pouco como vimos este ano nos cinemas no filme consagrado à geógrafa Suzanne Daveau; e colocar o povo Macondo na atualidade a olhar para os filmes que a própria filmou no passado sobre a sua comunidade e a pensar no que se perdeu entretanto.
Tal como tantos filmes focados em figuras individuais que passaram pelos tempos coloniais, do documentário à ficção, passando pelos híbridos, neste descolonizar a mente em marcha um pouco por todo o lado o colonialismo é muitas vezes abordado como uma entidade abstrusa, um “eles” que se opõe ao nós (objeto do filme), que se afasta dessa obscuridade. E isso aqui é frontalmente uma opção quando também se compara o “gaze” de Margot nos seus filmes com aqueles institucionais, entre o ensino e a propaganda.
Reside no elemento de confrontar os Maconde de hoje com os de ontem a maior força deste pequeno objeto cinemático bem compactado em pouco mais de 70 minutos, o qual, invariavelmente, nunca larga um certo tom didático. Porém, é indisfarçável igualmente a abordagem pessoal que Catarina Alves Costa faz a todo o material, pois a cineasta nunca consegue (nem quer) tapar o fascínio que tem por uma mulher que conheceu no fim da sua vida.



















