Ninjas, os assassinos silenciosos do Oriente, candidataram-se a uma vaga na cultura pop no fim dos anos 1970, a partir das coproduções entre Hong Kong e Coreia com Mun Kyong-sok, mais conhecido como Dragon Lee, e das BDs da Marvel com a assassina Elektra, forjadas na pena de Frank Miller.
O fascínio provocado por figuras mascaradas, armadas com lâminas e bastões dos mais exóticos – sem contar as shuriken, as estrelinhas de metal afiado -, abriram precedentes para a criação de um filão B, que se alinha com a explotation deflagrada pelo sucesso de Bruce Lee, em especial “Enter The Dragon”, de 1973. Filão este que aproveitou desde Franco Nero (como protagonista de “Ninja, o Imbatível”, de Menahem Golan) até as irmãs Lana Lilly Wachowski (como produtoras de “Ninja Assassin”), passando por Michael Dudikoff, na franquia “American Ninja”, iniciado em 1985.
Associado sempre à ideia de um cinema B, a mitologia dos ninjas ganha gosto gourmet com “Snake Eyes: A Origem dos G.I. Joe”, uma superprodução que investiga o mais popular dos heróis derivados da linha de brinquedos Hasbro. Brinquedos que ganharam uma série de desenhos animados popular nos EUA, em 1985. Mas esse regresso da marca nascida em forma de action figures tem muito mais vigor (plástico e dramatúrgico) do que se esperava, graças ao trabalho de realização do cineasta alemão Robert Schwentke, que deslumbrou San Sebastián, em 2017, com “O Capitão”.
Os G.I. Joe são uma força antiterror que congrega guerreiros do planeta numa dramaturgia maniqueísta, onde têm apenas um alvo de Maldade exultante: os Cobras, uma célula dedicada à dominação do mundo.
Duas longas-metragens – uma, de 2009; outra, de 2013 – que faturaram 677 milhões de dólares fizeram da luta entre essas duas facções uma máquina de faturar dólares. A escolha inercial, diante da natureza comercial dessa linhagem de filmes, seria fazer uma terceira aventura que continuasse a guerra deles de onde ela parou. Mas o seu produtor, Lorenzo di Bonaventura, uma espécie de Dino De Laurentiis dos novos tempos (e dos blockbusters), transformado em Midas com “Transformers” (2007), percebeu que seria mais lucrativo (inclusive esteticamente) seguir por um outro caminho, o dos spin-offs, e explorar a génese de Snake Eyes, o ninja dos Joe, que, nos desenhos, sequer falava.
Há um episódio da série animada dos anos 1980 em que ele, com uma sabedoria singular, impede que os seus colegas soldados avancem por um rio que não aparenta ser nada perigoso. Ele pede que todos que parem, com um gesto, tira uma coxa de frango assado do seu farnel e enfia a guloseima nas águas. Em segundos, a coxa volta só como um osso, indiciando que ali há piranhas. Este é Snake Eyes, um pilar de temperança.
Um dos achados do filme de Schwentke é a sua escolha em diluir essa virtude, mostrando Snake nos seus dias de juventude, quando ele ainda não desfilava a retidão moral que alcançaria na sua idade adulta. O que temos nesse frenético novo filme – uma aula de edição de Stuart Levy, o montador de “Jumper” – é uma narrativa de vingança, com doses fartas de melodrama, bem à moda dos animes do Japão, sobretudo “Street Fighter”. Snake, confiado ao poço de carisma chamado Henry Golding, ator malaio, é um operário da Yakuza, e lutador nas horas vagas, que sonha encontrar o assassino do seu pai. Para isso, ele se alia a Kenta (Takehiro Hira, em fina atuação), que deseja destruir o clã do guerreiro Tommy (Andrew Koji), que virá a ser o assassino Storm Shadow. Nessa aliança, Snake entra num universo de aprendizes e de sedução, em sua relação (platónica) com Akiko (Haruka Abe), até descobrir que o reino deles tem uma série de elementos fantásticos, como serpentes centenárias e uma jóia capaz de gerar descargas de energias – como é bem típico dos enredos dos Joe. E há uma descoberta a mais: a de que os Cobra estão de olho naquele cantinho de mundo. Não por acaso, a vilã Baronesa (Úrsula Corberó, que rouba todas as cenas) está lá.
Apostando num refinamento visual hoje cada vez mais procurado pelos filmes de ação, garantido a ele pela fotografia saturada de Bojan Bazelli, Schwentke consegue equilibrar a essência do universo G.I. Joe com a matriz B do cinema de ninjas dos anos 1970 e 80, produzindo um belo tributo a esse legado de outrora, ao mesmo tempo em que dialoga com a estética cinemática à la “John Wick” onipresente hoje no género de ação. Ele usa com sabedoria as personagens famosas dos desenhos animados da década de 1980, como Scarlett (Samara Weaving) – e a sua besta certeira -, e dá uma tónica folhetinesca às personagens de Storm Shadow e de Snake Eyes, explorando as vaidades de ambos.
Na essência, a sua reflexão é de que grandes combatentes precisam abrir mão da sua empáfia, confiando na destreza e da perceção da realidade à volta deles. E é assim que ele dirige essa feérica obra, que surpreende a plateia com a filmagem da esgrima entre katanas cheias de sangue.
É um espetáculo sujo de coágulos, à moda de um tipo de filme que não se faz… ou melhor, não se fazia… mais.



















