Se a Cinemateca Portuguesa tem uma nova rotina diária devido às circunstâncias extraordinárias em que vivemos, a verdade é que a qualidade da sua programação permanece imbatível. Das várias secções que em setembro têm vindo a iluminar os ecrãs das suas salas, destaca-se a retrospetiva pela obra do cineasta senegalês Ousmane Sembène, integrada na colaboração da Cinemateca com a 17ª edição do IndieLisboa, um ciclo In Memoriam dedicado ao consagrado compositor Ennio Morricone, que faleceu a 6 de julho de 2020, e ainda o retorno da série iniciada no ano passado sobre “Os Grandes Géneros”, que este ano se centra na comédia e que agora terá a sua segunda parte, “A Comédia, Improvavelmente”.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 21 a 26 de setembro:
– Recordações da Casa Amarela (1989) – Segunda-feira, 21 de setembro, 21h30, Esplanada. Uma “comédia lusitana” que marca o nascimento de João de Deus, personagem cáustica e poética que só João César Monteiro poderia interpretar. À primeira vez, saído de um manicómio para divagar diletante por Lisboa e “dar-lhes trabalho”, João de Deus encanta-se com uma menina que toca clarinete, passa uma noite de amor sob o olhar de Stroheim em imagem pregada na parede em cima da cama da pensão e transfigura-se em criatura das trevas como Nosferatu no fim do filme.
– Ensayo de un Crimen (Ensaio de um Crime, 1955) – Terça-feira, 22 de setembro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Ensayo de un Crimen é um dos pontos culminantes da obra de Luis Buñuel, percorrida por todas as obsessões do realizador. É uma obra-prima de humor negro, sobre um homem de aparência plácida e respeitável, cujo traumatismo de infância o empurra para o crime, tentando assassinar as mulheres em que projeta as suas frustrações e desejos. Elas morrem todas, mas… por acidentes. Justamente considerada uma das obras-primas de um cinema de inspiração onírica e surrealista.
– Days of Heaven (Dias do Paraíso, 1978) – Quinta-feira, 24 de setembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Segundo filme de Terrence Malick, feito com o mesmo rigor “documental” do primeiro (Badlands), e possuído de um lirismo na descrição da vida dos camponeses e do trabalho nas grandes quintas no Texas no começo do século passado (marcado também pela introdução da nova maquinaria) que evoca simultaneamente a pintura de Grant Wood e os filmes clássicos do género, de King Vidor ou de John Ford. Mas as paixões proibidas atravessam o filme e subvertem a “pastoral”, transformando-a num ritual de violência e erotismo.
– Happy-Go-Lucky (Um Dia de Cada Vez, 2008) – Sexta-feira, 25 de setembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. O otimismo de Poppy, personagem interpretada por Sally Hawkins, tem o condão de irritar quase toda a gente a sua volta, a começar pelo seu instrutor de condução, Scott (Eddie Marsan). A premissa deste filme do “realista” Mike Leigh joga com as nossas expectativas, retratando as agruras da vida através do olhar de alguém que é hábil – pelo menos a superfície – a fintar o sofrimento. Hawkings tem um desempenho tocante que lhe valeu um Globo de Ouro e uma distinção no Festival de Berlim.

– La Resa dei Conti (1966) – Sexta-feira, 25 de setembro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Um western-spaghetti que passou algo despercebido na época de estreia, mas que hoje é considerado um dos cumes do género. Com argumento de Sergio Sollima, que realiza, em colaboração com Sergio Donati (que viria a escrever alguns dos mais celebrados filmes de Sergio Leone), é uma história de perseguição e enganos em que Lee van Cleef, um caçador de prémios, persegue o suposto raptor de uma miúda adolescente. O filme faz jus ao negrume e à frieza das principais declinações italianas do western, em que tudo é mais complicado do que as aparências.
– M.A.S.H. (1970) – Sábado, 26 de setembro, 21h30, Esplanada. Um dos mais controversos e provocantes filmes americanos dos anos 1970, época em que Hollywood conseguiu renovar-se com a chegada de diversos nomes à realização. Um dos títulos mais populares de Robert Altman depois transformado em série televisiva que durou mais de uma década. Irreverente, escrito por Ring Lardner Jr, M.A.S.H. (que significa Mobile Army Surgical Hospital) localiza-se durante a guerra da Coreia e é uma chocante e irresistível incursão pela ação de uma equipa médica.

