Ousmane Sembène, Fórum de Berlim e Mati Diop em foco no IndieLisboa

(Fotos: Divulgação)

Uma retrospectiva integral da obra do “pai do cinema africano“, o senegalês Ousmane Sembène, os filmes da realizadora Mati Diop, e os 50 anos do Fórum da Berlinale, serão focos de grande interesse da 17.ª edição do IndieLisboa, em 2020.

Em parceria com a Cinemateca Portuguesa, o IndieLisboa apresenta a retrospetiva integral de Ousmane Sembène, escritor e realizador que iniciou carreira em 1963 com a curta Borrom Sarret, dois anos depois de entra para uma escola em Moscovo. Em 1964 assinou Niyai, curta polémica que ganhou uma menção no Festival de Locarno e que conta a história de uma família nobre dos Niayes (regiões rurais do Senegal) que é desonrada depois do pai cometer incesto com a filha. Em 1966 lança a primeira longa-metragem “negro-africana”, Black Girl, com a qual ganha o Prémio Jean Vigo, sobre uma jovem senegalesa que deixa o seu país e a família para ir para França trabalhar para um casal que a humilhará e a tratará como escrava, conduzindo-a ao suicídio.

O cinema de Sembène sempre foi marcado pela crítica social, da relação dos europeus com os africanos e com a condição das mulheres e homens perante as esferas do poder, algo que voltaria a ser vincado na sua comédia Mandabi (1968), onde explora a nova burguesia senegalesa do pós-independência. Três anos depois, e já com outra curta pelo caminho (Tauw, 1970), lança Emitaï (1971), projeto banido durante cinco anos na África francófona. A longa desenrola-se no final da Segunda Guerra Mundial, com o governo de Vichy a recrutar homens das colónias francesas e uma revolta a ganhar vida numa vila após as mulheres esconderem as colheitas para escapar às taxas gaulesas.

Em 1975 lança Xala, sobre um empresário do Senegal que é amaldiçoado por uma disfunção erétil incapacitante no dia do casamento com a sua terceira esposa, e em 1977 surge Ceddo (1977), filme passado após o estabelecimento da presença europeia na região, mas antes da imposição da administração colonial francesa direta. Banido no Senegal, o filme acompanhava como o povo Ceddo (“plebeus”) tenta  preservar a sua cultura tradicional contra as investidas do Islão, do Cristianismo e do tráfico de escravos.

França e o seu colonialismo voltariam a estar na mira do realizador em Camp de Thiaroye (1988), que acompanha um motim e a matança em massa de tropas da África Ocidental pelas forças francesas de 30 de novembro a 1 de dezembro de 1944. Os recrutas da África Ocidental protestavam contra as más condições e a revogação do pagamento no campo de Thiaroye. Seguiram-se Guelwaar (1992), sobre o orgulho e religião partindo de uma história real; Faat Kiné (2001), um olhar crítico sobre o Senegal moderno pós-colonial e o lugar das mulheres na sociedade; e Moolaadé, que ataca a muitilação genital feminina.

50 anos do Fórum do festival de Berlim

Em colaboração com o Goethe-Institut Portugal e a Cinemateca Portuguesa, o IndieLisboa vai mostrar uma selecção que integra alguns dos filmes exibidos na sua primeira edição em 1971, na altura chamada Fórum Internacional do Novo Cinema, onde se destaca – inevitavelmente – a obra-prima de Dušan MakavejevW.R. – Mysteries of the Organism. Dois filmes do também pioneiro do cinema africano Med Hondo (Soleil ÔMes voisins) serão igualmente exibidos, tal como It Is Not the Homosexual Who Is Perverse, But the Society in Which He Lives, de Rosa Von Praunheim (1971).

Diop na Silvestre

Na secção Silvestre, o foco será na realizadora franco-senegalesa Mati Diop, cujo Atlantique estreou e conquistou um prémio no último Festival de Cannes. Serão exibidas as obras Liberian Boy, Mille Soleils, Big in Vietnam e Snow Canon

Programa

Retrospectiva: Ousmane Sembène

Mooladé (2004)

Faat Kiné (2001)

Guelwaar (1992)

Camp de Thiaroye (1988)

Ceddo (1977)

Xala (1975)

Emitaï (1971)

Tauw (Short) (1970)

Mandabi (1968)

Black Girl (1966)

Niaye (Short) (1964)

Borom sarret (Short) (1963)

Retrospectiva: 50 Anos do Fórum da Berlinale

Eldrige Cleaver, Black Panther, William Klein (1970)

W.R. – Misterije Organizma / W.R. – Mysteries of the Organism , Dušan Makavejev (1971)

Angela – Portrait of A Revolutionary, Yolande du Luart (1971)

El cuarto poder, Helena Lumbreras, Mariano Lisa (1971)

Ostia, Sergio Citti (1970)

Soleil Ô / Oh, Sun! , Med Hondo (1970)

Mes voisins / My Neighbours , Med Hondo (1971)

Eine Prämie für Irene / Bonus for Irene , Helke Sander (1971)

The Woman’s Film (Newsreel #55) , Women’s Caucus – San Francisco Newsreel (1971)

Monangambeee , Sarah Maldoror (1969)

Phela-ndaba (End of the Dialogue), Members of the Pan Africanist Congress (1970)

Nicht der Homosexuelle ist pervers, sondern die Situation, in der er lebt / It Is Not the Homosexual Who Is Perverse, But the Society in Which He Lives , Rosa Von Praunheim (1971)

Foco Silvestre: Mati Diop

Atlantique (2019)

Liberian Boy (2015)

Mille Soleils (2013)

Big in Vietnam (2012)

Snow Canon (2011)

Atlantiques (2009)

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