5 obras-primas inesquecíveis de Ennio Morricone

(Fotos: Divulgação)

Com seis décadas de carreira, Ennio Morricone é um nome maior, não só da música para o cinema, mas da música em geral.

Stravinsky, o “seu maestro” Goffredo Petrassi e vários outros compositores – Stockhausen, Boulez, Nono, Berrio, Palestrina & Monteverdi, e Bach – deixaram marcas muito positivas no decorrer do seu desenvolvimento musical, como admitiu em entrevista em 1974: “Esses compositores fazem parte de mim, porque os digeri e os filtrei. Posso reproduzi-los facilmente, mas de uma maneira completamente revisionista pela minha não passividade em relação a eles“.

Compositor de centenas de trabalhos, Morricone executou algumas das partituras mais brilhantes na música para o cinema, sendo assim difícil escolher de quais falar. Ainda assim, e no calor do momento ao nos inteirarmos da sua morte, existiram cinco trabalhos que vieram imediatamente à nossa cabeça. É deles que falamos a seguir…

O Bom, o Mau e o Vilão

Não é possível dissociar o western de Sergio Leone da composição musical executada por Morricone – onde o compositor inicia uma abordagem à utilização de instrumentos não convencionais em filmes (gaitas, latas, uma roda d’água estridente, o toque de um telégrafo, o gotejar de água, chicotes, etc), servindo de inspiração para tantos trabalhos subsequentes no sub-género do spaghetti Western.

O tema principal, semelhante ao uivo de um coiote, é uma melodia de duas notas usada para as três personagens principais, com um “instrumento” diferente para cada um: flauta, ocarina e vozes humanas.

Se é verdade que criei um novo tipo de western inventando personagens picarescas e situações épicas, foi a música de Ennio Morricone que as fez falar“, disse Sergio Leone sobre a colaboração com o compositor.

Leone, foi, efetivamente, o cineasta que mais marcou a carreira de Morricone, mesmo tendo colaborado com autores como Pier Paolo Pasolini (“Teorema”; “Orgia“; “As Mil e Uma Noites”; “Decameron”), Gillo Pontecorvo (“A Batalha de Argel“), Bernardo Bertolucci (Antes da Revolução” e “1900”), Brian De Palma (“Os Intocáveis”), Terrence Malick (“Dias do Paraíso”), Pedro Almodóvar (“Ata-me“) e Quentin Tarantino (“Os Oito Odiados”).

Eles já tinham colaborado anteriomente em “Por um Punhado de Dólares” e “Por Mais Alguns Dólares“, trabalhando posteriormente nas partituras também memoráveis de “Aconteceu no Oeste“, “Aguenta-te, Canalha!” e “Era uma Vez na América“.

Cinema Paraíso

Num filme profundamente emocional e nostálgico, Morricone acentua ao piano uma fábula de crescimento de um jovem (Toto) com o seu amigo projecionista Alfredo ao longo de toda a infância e adolescência, tudo num olhar para trás quando o já adulto Toto recorda essa mesma amizade entre duas gerações diferentes marcadas pelo Cinema e o poder das imagens. 

Para um compositor mais conhecido pela sua música mais dramática, estas melodias melancólicas e nostálgicas capturam de forma sucinta e o brilho quente da visão e das imagens de Tornatore (realizador de “Cinema Paradiso”)“, diz David J. Rimme, nas notas do CD “Cinema Paradiso – The Classic Film Music of Ennio Morricone”.

Mais uma banda-sonora que é impossível dissociar do filme em si. Viria a trabalhar com Tornatore em vários outros filmes, como os recentes “A Melhor Oferta” (2013) e “A Correspondência” (2016).

A Missão

Considerada uma das mais conseguidas bandas-sonoras do cinema, como o foi mencionado quando Morricone recebeu o Oscar Honorário em 2007, nela Morricone combina a música renascentista e a criada pelos próprios índios, usando instrumentos indígenas da América do Sul, dando assim não apenas um sentido musical, mas também histórico sobre a comunhão espiritual entre os jesuítas e os índios.

Batuques indígenas, cravo, oboé, violão espanhol fundem-se para o que o próprio Morricone referiu em entrevista dar “pertinência histórica ao período em questão”

Neste filme, tive um problema que não se manifestou imediatamente, mas pouco a pouco, sem nenhum aviso do realizador ou produtor. O filme passa-se numa missão católica da América do Sul na primeira metade do século XVIII. Alguns padres ensinam música aos guarani, transmitindo-lhes o que era praticado na Europa naquele tempo. Além disso, o jesuíta encarregado da missão toca oboé. Havia um contexto litúrgico a ser levado em consideração, ainda ligado à tradição ocidental, mas que, neste caso, se referia à música sacra. Então, por razões de ambiência, era necessária a música dos índios, música étnica. Eu queria misturar as três ideias, e fi-lo durante o filme:  oboé e música étnica; música étnica; e música litúrgica. Somente no final combinei as três componentes, algo que tinha antecipado desde o início e, portanto, sem muita luta – com a ideia de interpretar a união dos padres com os guarani. O envolvimento técnico da música é semelhante à comunhão entre as pessoas. Para mim, alcançar essa solução foi muito satisfatório, porque era difícil encontrar uma maneira tão autónoma”, disse Morricone sobre o seu trabalho.

Os Oito Odiados

Fã de Morricone, Tarantino já tinha usado e abusado dos temas criados pelo compositor italiano em “Kill Bill”. Para “Os Oito Odiados”, em entrevista à Deadline o compositor admitiu que não foi nada fácil conseguir chegar à banda-sonora, que lhe valeria o Oscar: “O processo criativo não é fácil. Tenho que entrar numa crise e questionar-me. Tenho que duvidar, questionar e formar uma base teórica muito importante para a música que vou produzir, porque essa música terá a força moral necessária para cada banda-sonora, independentemente da importância ou relevância do filme. Nos Oito Odiados, existem alguns sons bastante simples, mas há um espírito subjacente que é muito complicado. Nas primeiras notas do tema principal, uso o fagote de uma maneira muito diferente. É a primeira vez que gravei uma música assim com o fagote, e isso também aconteceu com as outras partes da música, porque queria dar a Tarantino uma banda-sonora própria. No passado, ele usou as músicas que escrevi de maneira magistral e também a música de outros cineastas. Ele é capaz de cortar e editar músicas. Ele não corta a música porque a sequência é muito curta, ele corta-a corretamente. Ele sempre demonstrou um grande respeito pela música. Desta vez, senti que queria dar-lhe uma banda-sonora única, apenas para ele”.

Os Intocáveis

Não há como negar o quão vital é a música de Morricone para o épico de gangsters em plena Lei Seca assinado por Brian De Palma. Do tema principal aos créditos, passando por diversas cenas específicas, o trabalho do compositor acentua o drama e a tensão nos momentos certos. Exemplo disso é aquela famosa cena final, na escadaria da estação de comboios. Com o nome “Machine Gun Lullaby”, nela funde-se as canções de embalar, barulhos metalizados e acordes mais tradicionais. 

Uma banda-sonora que lhe valeu a nomeação ao Oscar, mas que não deixou de ter os seus momentos de angústia, como o compositor explicou ao The Guardian em 2001. “De Palma é delicioso! Ele respeita a música, ele respeita os compositores. Para ‘Os Intocáveis”,  tudo o que propus estava bem para ele, mas ele queria uma peça musical que não gostei, e claro que não chegamos acordo sobre isso. Era algo que eu não queria escrever – uma peça triunfal para a polícia. Acho que escrevi nove peças diferentes para isso e disse: ‘Por favor, não escolhas a sétima!’ porque era a pior. E adivinhe qual escolheu? A sétima. Mas realmente combina com o filme.

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