Se a Cinemateca Portuguesa tem uma nova rotina diária devido às circunstâncias extraordinárias em que vivemos, a verdade é que a qualidade da sua programação permanece imbatível. Das várias secções que em setembro têm vindo a iluminar os ecrãs das suas salas, destaca-se a retrospetiva pela obra do cineasta senegalês Ousmane Sembène, integrada na colaboração da Cinemateca com a 17ª edição do IndieLisboa, um ciclo In Memoriam dedicado ao consagrado compositor Ennio Morricone, que faleceu a 6 de julho de 2020, e ainda o retorno da série iniciada no ano passado sobre “Os Grandes Géneros”, que este ano se centra na comédia e que agora terá a sua segunda parte, “A Comédia, Improvavelmente”.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 14 a 19 de setembro:
– Dr. Strangelove (Dr. Estranhoamor, 1964) – Segunda-feira, 14 de setembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Peter Sellers, mestre do disfarce e campeão na arte de acumular personagens num só filme, assume aqui quatro papéis, incluindo um dos mais famosos da sua carreira: o do Doutor Strangelove, o cientista ex-nazi que dá o título ao filme de Kubrick. Esta é provavelmente a mais corrosiva paródia dos tempos da guerra fria, realizada na ressaca da crise dos mísseis, e onde o pessimismo kubrickiano se manifesta num registo quase burlesco, com uns toques de niilismo. Entre o humor negro de Kubrick e o de Scorsese (O Rei da Comédia (1982) também está em exibição esta semana), não pudemos senão optar por este clássico estrondoso.
– Happiness (Felicidade, 1998) – Segunda-feira, 14 de setembro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Improvável encontro entre o espírito da sitcom e a herança de John Cassavetes, este é um retrato do lado escuro do quotidiano da classe média americana. Completamente desesperado, mas capaz de viver o desespero com um sorriso (mesmo que cínico) nos lábios e sempre de forma saudavelmente pagã. O filme de Solondz torna-se por isso uma espécie de comédia negra onde se cristalizam sonhos e frustrações como se fossem duas faces da mesma moeda.
– Serial Mom (Mãe Galinha, 1994) – Quarta-feira, 16 de setembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. O “campeão do mau gosto”, John Waters regressava em 1994 para assinar o terceiro filme da sua fase mais mainstream. A estrela Kathleen Turner ter-se-á deixado seduzir pela estranheza do projeto, aceitando interpretar uma mãe galinha programada para matar, pouquíssimo tolerante com todos aqueles que se interpõem entre a sua família e um sonho americano que parece ter saído de um anúncio de eletrodomésticos dos anos 50. A história desta serial killer de Baltimore foi o produto de um fascínio antigo de Waters por julgamentos muito mediatizados nos EUA. A 29 de setembro, terça-feira, pelas 21h30, o filme voltará a ser exibido na Esplanada.
– La Resa dei Conti (1966) – Quinta-feira, 17 de setembro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Um western-spaghetti que passou algo despercebido na época de estreia, mas que hoje é considerado um dos cumes do género. Com argumento de Sergio Sollima, que realiza, em colaboração com Sergio Donati (que viria a escrever alguns dos mais celebrados filmes de Sergio Leone), é uma história de perseguição e enganos em que Lee van Cleef, um caçador de prémios, persegue o suposto raptor de uma miúda adolescente, mas tudo é mais complicado do que as aparências. O filme faz jus ao negrume e à frieza das principais declinações italianas do western, e poderá ser revisto a 25 de setembro, sexta-feira, às 19h00, na Sala M. Félix Ribeiro.

– Days of Heaven (Dias do Paraíso, 1978) – Sexta-feira, 18 de setembro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Segundo filme de Terrence Malick, feito com o mesmo rigor “documental” do primeiro (Badlands), e possuído de um lirismo na descrição da vida dos camponeses e do trabalho nas grandes quintas no Texas no começo do século passado (marcado também pela introdução da nova maquinaria) que evoca simultaneamente a pintura de Grant Wood e os filmes clássicos do género, de King Vidor ou de John Ford. Mas as paixões proibidas atravessam o filme e subvertem a “pastoral”, transformando-a num ritual de violência e erotismo. Uma segunda exibição será feita a24 de setembro, quinta-feira, pelas 15h30, na Sala M. Félix Ribeiro.
– White Dog (O Cão Branco, 1982) – Sábado, 19 de setembro, 21h30, Esplanada. White Dog é uma parábola sobre o racismo centrada num cão treinado para atacar pessoas de pele negra, e foi o último filme que Samuel Fuller realizou no quadro de um grande estúdio. Os executivos da Paramount tiveram receio de matéria tão sensível e optaram por não o estrear em sala. A difícil visibilidade do filme, juntamente com a “má fama” de Fuller, alimentou alguns mitos: há quem, sem o ter visto, acredite que este é um filme racista. Pelo contrário, é uma obra bastante pertinente para os dias de hoje, que questiona o ódio racial e as raízes do comportamento humano.

