Se a Cinemateca Portuguesa tem uma nova rotina diária devido às circunstâncias extraordinárias em que vivemos, a verdade é que a qualidade da sua programação permanece imbatível. Das várias secções que em setembro irão iluminar os ecrãs das suas salas, destaca-se a retrospetiva pela obra do cineasta senegalês Ousmane Sembène, integrada na colaboração da Cinemateca com a 17ª edição do IndieLisboa, um ciclo In Memoriam dedicado ao consagrado compositor Ennio Morricone, que faleceu a 6 de julho de 2020, e ainda o retorno da série iniciada no ano passado sobre “Os Grandes Géneros”, que este ano se centra na comédia e que agora terá a sua segunda parte, “A Comédia, Improvavelmente”.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 7 a 12 de setembro:
– No Quarto da Vanda (2000) – Segunda-feira, 7 de setembro, 15h00, Sala M. Félix Ribeiro. Uma extraordinária experiência de cinema, ímpar no panorama do cinema mundial. Neste filme reencontramos alguns lugares e personagens de Ossos, a obra que Pedro Costa havia realizado três anos antes, como a própria protagonista, uma mulher toxicodependente habitante do bairro de lata das Fontaínas. No Quarto da Vanda foge da ficção tanto quanto foge do documentário para se instalar num território inventado por si. Foi o filme em que Costa reinventou a sua maneira de estar no cinema, filmando pela primeira vez em digital e praticamente sozinho, sobre temas que têm percorrido a sua carreira.
– It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World (O Mundo Maluco, 1963) – Terça-feira, 8 de setembro, 15h00, Sala M. Félix Ribeiro. Nome associado a dramas sérios, de forte mensagem social ou política, Stanley Kramer liderou esta produção recheada de estrelas que aspirava a ser uma comédia para acabar com todas as comédias. Depois de saber da existência de 350 mil dólares enterrados algures em Santa Rosita, um grupo de motoristas parte à procura da fortuna roubada. Eis uma chase comedy épica (em Cinerama, com mais de três horas), que redundou num gigantesco sucesso popular e que envolveu exuberantes meios de produção. Trata-se também de uma homenagem à grande comédia slapstick americana, assinalada pelas presenças no elenco, entre outros, de Buster Keaton e dos Three Stooges (Os Três Estarolas).
– Sedmikrasky (Jovens e Atrevidas, 1966) – Terça-feira, 8 de setembro, 21h30, Esplanada. Um dos grandes clássicos das novas vagas europeias dos anos sessenta. Duas belas jovens chamadas Marie atravessam diversas aventuras, em que fazem tudo para se divertir. Vão a piscinas públicas, a night clubs, provocam os homens, destroem tudo durante um banquete. “Já que o mundo destrói tudo, destruamos o mundo!”. Segundo a realizadora, trata-se de “uma comédia bizarra, com elementos de sátira e sarcasmo em relação às duas protagonistas”. Com cores fortes, este talvez seja o filme mais pop da “outra Europa”.

– Dr. Strangelove (Dr. Estranhoamor, 1964) – Quinta-feira, 10 de setembro, 21h30, Esplanada. Peter Sellers, mestre do disfarce e campeão na arte de acumular personagens num só filme, assume aqui quatro papéis, incluindo um dos mais famosos da sua carreira: a do Doutor Strangelove, o cientista ex-nazi que dá o título ao filme de Kubrick. Esta é provavelmente a mais corrosiva paródia dos tempos da guerra fria, realizada na ressaca da crise dos mísseis, e onde o pessimismo kubrickiano se manifesta num registo quase burlesco, com uns toques de niilismo. Entre o humor negro de Kubrick e o de Scorsese (O Rei da Comédia (1982) também está em exibição esta semana), não pudemos senão optar por este clássico estrondoso, cuja exibição se repetirá a 14 de setembro, segunda-feira, às 15h30 na Sala M. Félix Ribeiro.
– Xala (1975) – Sexta-feira, 11 de setembro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Adaptação de um romance publicado pelo realizador dois anos antes, este é um dos filmes mais conseguidos de Ousmane Sembène. Trata-se de uma sátira feroz e, por vezes, hilariante às classes dominantes senegalesas. Nela, um homem rico e já maduro resolve casar com uma terceira mulher, bem mais jovem do que ele. Mas é vítima de um bruxedo (a “xala” titular), que o torna impotente. A narrativa acaba por abandonar o tom bem-humorado e foca-se nos mil problemas que o protagonista cria para si mesmo na gestão, demasiado fraudulenta, do organismo de importação de bens alimentares onde ocupa um alto cargo.
– White Dog (O Cão Branco, 1982) – Sábado, 12 de setembro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. White Dog é uma parábola sobre o racismo centrada num cão treinado para atacar pessoas de pele negra, e foi o último filme que Samuel Fuller realizou no quadro de um grande estúdio. Os executivos da Paramount tiveram receio de matéria tão sensível e optaram por não o estrear em sala. A difícil visibilidade do filme, juntamente com a “má fama” de Fuller, alimentou alguns mitos: há quem, sem o ter visto, acredite que este é um filme racista. Pelo contrário, é uma obra bastante pertinente para os dias de hoje, que questiona o ódio racial e as raízes do comportamento humano. Embora a banda sonora seja assinada por Ennio Morricone e esse seja o pretexto desta exibição, esta está longe de ser uma das suas contribuições mais aclamadas (A Missão (1986) e Por um Punhado de Dólares (1964) também estão em exibição esta semana para aqueles que querem ouvir os grandes temas do compositor italiano). Uma segunda sessão terá lugar a 19 de setembro, sábado, às 21h30 na Esplanada.

