Se a Cinemateca Portuguesa tem uma nova rotina diária devido às circunstâncias extraordinárias em que vivemos, a verdade é que a qualidade da sua programação permanece imbatível. Das várias secções que entre agosto e setembro irão iluminar os ecrãs das suas salas, destaca-se a retrospetiva pela obra do cineasta senegalês Ousmane Sembène, integrada na colaboração da Cinemateca com a 17ª edição do IndieLisboa, um ciclo In Memoriam dedicado ao consagrado compositor Ennio Morricone, que faleceu a 6 de julho de 2020, e ainda o retorno da série iniciada no ano passado sobre “Os Grandes Géneros”, que este ano se centra na comédia e que agora terá a sua segunda parte, “A Comédia, Improvavelmente”.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 31 de agosto a 5 de setembro:
– Moolaadé (2004) – Terça-feira, 1 de setembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro // Sábado, 5 de setembro, 21h30, Esplanada. No seu derradeiro filme, Ousmane Sembène aborda o polémico tema da excisão feminina. A história passa-se numa aldeia, no dia em que várias crianças vão sofrer a horrível mutilação. Duas delas suicidam-se e as quatro sobreviventes pedem proteção, através da magia, a uma mulher. No passado, esta recusara que a sua própria filha sofresse a excisão e, agora, a filha é recusada como noiva do filho do chefe da aldeia, pois foi descoberto que não tinha sido “purificada” pela excisão. A mulher é a única a poder suspender a proteção mágica (a “moolaadé” do título) e sofre violentas pressões no meio de um choque de gerações. No seu testamento cinematográfico, o patriarca do cinema africano lança-se num questionamento das tradições.
– W.R. – Misterije Organizma (Os Mistérios do Organismo, 1971) – Terça-feira, 1 de setembro, 21h30, Esplanada. Típico da época em que foi feito, este talvez seja o filme mais célebre do sérvio Dusan Makavejev, o realizador mais cosmopolita da ex-Jugoslávia. A obra tem a forma de um documentário-ensaio, refletindo sobre as teses e a prática do psicanalista Wilhelm Reich, assistente de Sigmund Freud, cujas obras foram queimadas em 1956, um ano antes da sua morte, por ordem da Justiça americana. “Estudando o reflexo orgásmico, Reich descobriu a energia vital, descobrindo as raízes profundas do medo à liberdade, do medo à verdade e do medo ao amor dos nossos contemporâneos”. Assim se lê no genérico irresistível desta obra memorável.
– Xala (1975) – Quarta-feira, 2 de setembro, 21h30, Esplanada. Adaptação de um romance publicado pelo realizador dois anos antes, este é um dos filmes mais conseguidos de Ousmane Sembène. Trata-se de uma sátira feroz e, por vezes, hilariante às classes dominantes senegalesas. Nela, um homem rico e já maduro resolve casar com uma terceira mulher, bem mais jovem do que ele. Mas é vítima de um bruxedo (a “xala” titular), que o torna impotente. A narrativa acaba por abandonar o tom bem-humorado e foca-se nos mil problemas que o protagonista cria para si mesmo na gestão, demasiado fraudulenta, do organismo de importação de bens alimentares onde ocupa um alto cargo.A exibição repete-se a 11 de setembro, sexta-feira, pelas 19h00, na Sala M. Félix Ribeiro.
– Ceddo (1977) – Quinta-feira, 3 de setembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Filme em que Ousmane Sembène ajusta contas com a religião com a qual ele próprio foi criado, o Islão. O enredo causou polémica na época, sobretudo nos meios muçulmanos, o que serviu de pretexto para a sua proibição no Senegal. Nele, Sembène equaciona a chegada do Islão à África a uma forma de colonialismo, comparável ao europeu, o que irritou profundamente os críticos e cineastas árabes. Quando o rei dos Ceddo parte para a guerra, um sacerdote muçulmano converte à força toda a sua tribo, exceto a filha do rei e o homem que a raptou, à guisa de protesto. Em vez de realizar um épico, um filme repleto de batalhas e figurantes, o realizador senegalês preferiu uma mise en scène reduzida e despojada.

– Stand By Me (Conta Comigo, 1986) – Sábado, 5 de setembro, 15h00, Salão Foz. Verão de 1959, quatros amigos, uma pequena vila do Oregon e um desaparecimento. Estes são os ingredientes de um filme de aventuras juvenil inspirado no conto de Stephen King, The Body. Desejosos de resolver um caso enigmático e de se tornarem heróis, os quatro amigos partem a procura de um adolescente desaparecido. Juntos ultrapassam vários perigos, confrontam-se e estreitam laços. Um filme sobre a amizade e crescimento.
– Borom Sarret (1965), La Noire de (1966) & Tauw (1970) – Sábado, 5 de setembro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Os dois primeiros filmes desta sessão são considerados os primeiros filmes realmente africanos, isto é, feitos em África por um africano. Borom Sarret é a primeira curta-metragem de Ousmane Sembène, e La Noire De… a sua primeira longa. Os dois filmes são próximos do ponto de vista temático e do ponto de vista formal: realizados a preto e branco, num estilo conciso, tratam de problemas da África contemporânea num tom realista. Em Borom Sarret, um habitante de Dakar que transpõe por engano a fronteira entre os bairros pobres e a parte rica da cidade com a sua carroça (sarret, adaptação de charette), que ali não pode circular, vê-se às voltas com a burocracia e os seus funcionários. La Noire De…é considerado uma metáfora de um jovem Estado africano, pois trata-se da história de uma jovem empregada que acompanha uma família francesa para a Côte d’Azur, onde perde todos os seus pontos de referência e naufraga. A fechar a sessão, Tauw é uma rara curta-metragem em que um rapaz de vinte anos erra em busca de trabalho depois de engravidar a namorada, que é rejeitada pela família, enquanto o seu irmão mais novo tem de lidar com as contradições de uma educação religiosa.

