Sessões na Cinemateca – Escolhas de 24 a 29 de agosto

(Fotos: Divulgação)

Se a Cinemateca Portuguesa tem uma nova rotina diária devido às circunstâncias extraordinárias em que vivemos, a verdade é que a qualidade da sua programação permanece imbatível. Das várias secções que entre agosto e setembro irão iluminar os ecrãs das suas salas, destaca-se a retrospetiva pela obra do cineasta senegalês Ousmane Sembène, integrada na colaboração da Cinemateca com a 17ª edição do IndieLisboa, um ciclo In Memoriam dedicado ao consagrado compositor Ennio Morricone, que faleceu a 6 de julho de 2020, e ainda o retorno da série iniciada no ano passado sobre “Os Grandes Géneros”, que este ano se centra na comédia e que agora terá a sua segunda parte, “A Comédia, Improvavelmente”.

Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 24 a 29 de agosto:

Le Sel des Larmes (O Sal das Lágrimas, 2020) – Segunda-feira, 24 de agosto, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. A reabertura da temporada de programação na Cinemateca faz-se com a antestreia da mais recente longa-metragem de Philippe Garrel. Estreado na última edição do Festival de Berlim, o filme segue um rapaz que deixa o pai para trás para ir estudar numa escola parisiense de prestígio. Lá, vê-se inquieto com os seus sentimentos por três interesses amorosos e pelo afastamento do pai. Filmada a preto e branco, esta é uma história de juventude cheia de sensualidade e riqueza psicológica.

Il Nuovo Cinema Paradiso (Cinema Paraíso, 1988) – Terça-feira, 25 de agosto, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Prémio Especial do Júri no Festival de Cannes à época, esta é hoje uma obra querida para todos os amantes de cinema. Quando um realizador italiano regressa à terra natal para assistir ao enterro do velho projecionista do cinema da aldeia, são evocadas as suas memórias de infância, intimamente ligadas aos filmes ali projetados. O tema musical principal do filme é uma das mais famosas composições de Ennio Morricone, cheia de doce nostalgia por um tempo e uma forma de viver e ver o cinema, cujo fim é simbolizado no filme pela morte e pela perda de inocência.

La Battaglia di Algeri (A Batalha de Argel, 1966) – Terça-feira, 25 de agosto, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Esta obra trata-se de uma encomenda oficial do governo da Argélia, três anos depois da independência do país (ao cabo de uma guerra de oito anos), cujo princípio de base foi o de não utilizar nenhuma imagem de arquivo – tudo é encenado. A ideia é mostrar que a violência estava dos dois lados do conflito e que a guerra não deixa nenhum dos seus participantes ileso ou limpo. Foi um filme muito aplaudido na altura e permanece uma referência no cinema de guerra anticolonialista, contando também com a música de Ennio Morricone.

Borom Sarret (1965), La Noire de (1966) & Tauw (1970) – Terça-feira, 25 de agosto, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. Os dois primeiros filmes desta sessão são considerados os primeiros filmes realmente africanos, isto é, feitos em África por um africano. Borom Sarret é a primeira curta-metragem de Ousmane Sembène, e La Noire De… a sua primeira longa. Os dois filmes são próximos do ponto de vista temático e do ponto de vista formal: realizados a preto e branco, num estilo conciso, tratam de problemas da África contemporânea num tom realista. Em Borom Sarret, um habitante de Dakar que transpõe por engano a fronteira entre os bairros pobres e a parte rica da cidade com a sua carroça (sarret, adaptação de charette), que ali não pode circular, vê-se às voltas com a burocracia e os seus funcionários. La Noire De…é considerado uma metáfora de um jovem Estado africano, pois trata-se da história de uma jovem empregada que acompanha uma família francesa para a Côte d’Azur, onde perde todos os seus pontos de referência e naufraga. A fechar a sessão, Tauw é uma rara curta-metragem em que um rapaz de vinte anos erra em busca de trabalho depois de engravidar a namorada, que é rejeitada pela família, enquanto o seu irmão mais novo tem de lidar com as contradições de uma educação religiosa. Esta tripla sessão será repetida a 5 de setembro, sábado, pelas 19h00, na Sala M. Félix Ribeiro.

Ceddo (1977) – Quinta-feira, 27 de agosto, 21h30, Esplanada. Filme em que Ousmane Sembène ajusta contas com a religião com a qual ele próprio foi criado, o Islão. O enredo causou polémica na época, sobretudo nos meios muçulmanos, o que serviu de pretexto para a sua proibição no Senegal. Nele, Sembène equaciona a chegada do Islão à África a uma forma de colonialismo, comparável ao europeu, o que irritou profundamente os críticos e cineastas árabes. Quando o rei dos Ceddo parte para a guerra, um sacerdote muçulmano converte à força toda a sua tribo, exceto a filha do rei e o homem que a raptou, à guisa de protesto. Em vez de realizar um épico, um filme repleto de batalhas e figurantes, o realizador senegalês preferiu uma mise en scène reduzida e despojada. Uma segunda projeção será feita a 3 de setembro, quinta-feira, às 15h30, na Sala M. Félix Ribeiro.

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