Este ano, a colaboração entre a Cinemateca Portuguesa e o festival IndieLisboa, que se encontra na sua 18ª edição, desdobrou-se em duas secções (“Director’s Cut” e “Director’s Cut em Contexto”), mas o melhor ficou reservado para o mês de setembro: uma retrospetiva praticamente integral da obra de Sarah Maldoror (1929-2020), realizadora conhecida sobretudo pela dimensão mais militante do seu cinema associada às lutas contra o colonialismo, e autora de uma obra multifacetada determinante para a afirmação de uma cultura negra, que, permanecendo em grande parte invisível, assume particular relevância no contexto português pela sua ligação ao nosso passado colonial. Este programa de sessões será o mais completo até à data alguma vez realizado sobre Maldoror.
Em setembro a Cinemateca promove ainda um ciclo sobre “O Cinema de Vichy – A França Ocupada (1940-44)”. Durante o período da ocupação pela Alemanha nazi foram realizados em França um total de 220 filmes, e este ciclo, que mostra exclusivamente filmes realizados entre junho de 1940 e agosto de 1944, dá um apanhado do que foi o cinema dito “de Vichy”, que ainda hoje continua a ser relativamente pouco conhecido. Ao contrário do que se possa pensar, os ocupantes alemães não tiveram a menor intenção de tolher a produção de filmes franceses; aliás, a proibição total de filmes americanos fez com que durante estes anos os franceses tenham visto quase exclusivamente produções nacionais. Além disso, o cinema de Vichy em nada foi um cinema de propaganda ideológica, ficando essa reservada a curtas-metragens que eram projetadas antes das sessões principais. O que se mostra neste ciclo são, por isso, obras pouco conhecidas ou pouco vistas, protagonizadas por nomes menos famosos, devido à partida para Hollywood dos realizadores de maior prestígio (Jean Renoir, Julien Duvivier, René Clair) e das maiores vedetas (Jean Gabin, Michèle Morgan), mas que ainda assim merecem reconhecimento.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 30 de agosto a 4 de setembro:

Sambizanga (1973) – Quarta-feira, 1 de setembro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Adaptação de A Vida Verdadeira de Domingos Xavier, obra literária do poeta angolano José Luandino Vieira, esta é a primeira longa-metragem conhecida de Sarah Maldoror. Se o livro se centra na figura do título, operário envolvido nos movimentos de resistência anticolonial, preso e torturado até à morte em 1961 pela polícia política portuguesa, o filme é narrado do ponto de vista da sua mulher, Maria, que parte em busca do marido, viajando até Luanda. Como escreveu Annouchka de Andrade, filha de Maldoror e de Mário Pinto de Andrade, “Sambizanga tem uma estética sensual, transmitida através de cenas do quotidiano: o casal Maria e Domingos, as longas viagens de Maria a pé por caminhos poeirentos, e a relação de Maria com o filho que carrega nas costas”. Uma segunda projeção terá lugar dia 8 de setembro, quarta-feira, pelas 19h00 na Sala M. Félix Ribeiro.

Un Dessert pour Constance (1980) & Scala Milan A.C. (2003) – Sexta-feira, 3 de setembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Duas ficções musicais produzidas para televisão que procuram combater o racismo com bastante humor, abordando o desenraizamento sentido pelos imigrantes africanos e a exclusão dos que habitam os bairros periféricos. Un Dessert pour Constance, adaptação de uma novela de Daniel Boulanger, centra-se no quotidiano de dois cantoneiros de origem africana que encontram um antigo livro de cozinha francês e que com ele ganham um concurso televisivo, enquanto procuram reunir fundos para que um amigo doente possa regressar a casa. Em Scala Milan A.C. um grupo de jovens dos subúrbios parisienses encontram o músico Archie Shepp e com ele compõem um rap em que abordam as suas vivências, ganhando outro concurso que os transporta para o famoso teatro de ópera La Scala, em Milão. Dois filmes que se transformam na interpretação coletiva de uma canção.

Le Corbeau (1943) – Sexta-feira, 3 de setembro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Le Corbeau é o mais célebre e discutido filme francês produzido durante a ocupação alemã. O cenário é uma cidade de província onde começam a circular cartas anónimas, com denúncias. A intriga e as acusações alargam-se a pouco e pouco, criando um clima de insegurança e medo. Este filme terrivelmente pessimista, construído com grande inteligência, pode ser visto como uma denúncia do colaboracionismo francês durante a ocupação alemã. Mas, como foi produzido pela Continental, empresa alemã fundada em Paris para a produção de filmes, nos ajustes de contas que se seguiram à guerra foi considerado “antifrancês” e proibido, fazendo com que Henri-Georges Clouzot e o seu argumentista fossem proibidos de trabalhar em cinema por algum tempo. A sessão repete-se na sexta-feira, 10 de setembro, pelas 15h30 na Sala M. Félix Ribeiro.

Fantastic Mr. Fox (O Fantástico Senhor Raposo, 2009) – Sábado, 4 de setembro, 15h00, Salão Foz. A primeira animação de Wes Anderson (em stop motion) adapta um conto infantil de Roald Dahl. A história é a de um casal de raposas (com as vozes de George Clooney e Meryl Streep) e da sua família (interpretados pelos atores que habitualmente trabalham com Wes Anderson). O senhor Raposo é um aventureiro, que sossegou depois do casamento com a Senhora Raposo, mas embarca em nova aventura quando, para alimentar a família, rouba três agricultores abastados de má índole. É só o início da aventura do fantástico filme de Wes Anderson.
Nota: Na terça-feira, 31 de agosto, voltará a ser exibido “Hopper/Welles”, pelas 21h30 na Esplanada, filme sugerido pelo C7nema na semana passada.

