A obra da cineasta Sarah Maldoror, falecida em abril de 2020, vai estar em grande destaque no próximo IndieLisboa. O festival e a Cinemateca Portuguesa apresentam a sua obra cinematográfica, num contexto quase integral, pois alguns dos seus filmes permanecem ainda por localizar.
Nascida Sarah Ducados, ela escolheu o seu nome artístico como homenagem a Os Cantos de Maldoror, obra do poeta surrealista Lautréamont. A sua carreira começou no teatro, tendo fundado a Compagnie d’Art Dramatique des Griots em Paris em 1956, a primeira trupe composta por atores africanos e afrocaribenhos que foi criada “para chamar a atenção de artistas e escritores negros“.
Nesta retrospectiva estarão presentes alguns dos seus filmes que refletem as questões que atravessaram toda a sua vida e pensamento: das guerras coloniais (Monangambé, Sambizanga) ao movimento da negritude (Aimé Césaire, Léon-Gontran Damas, Toto Bissainthe), passando pelos retratos de artistas que influenciaram a sua criação (Ana Mercedes Hoyos, Vlady, Miró).
Annouchka de Andrade estará em Lisboa durante o festival para acompanhar a retrospectiva, que incluirá filmes totalmente inéditos, cujo paradeiro foi recentemente descoberto. Haverá ainda espaço para uma contextualização da sua obra em colaboração com outros autores, como Gillo Pontecorvo, Chris Marker ou William Klein.
Depois de estudar cinema em Moscovo no início dos anos 60 (tal como Ousmane Sembène), começou a criar os seus filmes sobre as questões coloniais e a afirmação de intelectuais africanos, e juntamente com o seu companheiro, o poeta e fundador do MPLA, Mário Pinto de Andrade, mergulha nos movimentos de libertação em África. Maldoror iniciou-se no cinema com “Monagambée“, curta de 1968 – presente na Quinzena dos Realizadores de Cannes em 1971 – que examina o tratamento brutal que os prisioneiros políticos angolanos eram sujeitos a partir da adaptação do conto O fato completo de Lucas Matesso (1967), de Luandino Vieira. Com Des fussils pour Banta, Sarah teve a sua primeira longa-metragem, projeto que foi travado e apreendido pelo governo revolucionário argelino depois de considerá-lo excessivamente ambíguo.

Deu nas vistas com “Sambizanga” (1972), filme franco-angolano-congolês com base na novela A vida verdadeira de Domingos Xavier, igualmente de José Luandino Vieira. O cenário é Angola e o filme segue as lutas dos militantes angolanos envolvidos no Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), do qual o marido de Maldoror, Mário Coelho Pinto de Andrade, era líder. Seguiram-se mais de vinte filmes, destacando-se documentários que destacaram artistas negros como o poeta Aimé Cesaire.
Uma das primeiras mulheres a filmar em África, Maldaror inspirou diversos realizadores, entre os quais Mathieu Kleyebe Abonnec, que em 2011 apresentou no circuito de festivais o documentário Preface à des fusils pour Banta, que imagina – a partir de três guiões possíveis – como seria o filme perdido da cineasta.
A lista completa de obras exibidas durante o IndieLisboa será revelada brevemente e integrará filmes completamente inéditos.As sessões em torno da sua obra serão apresentadas de forma presencial.

