“Sofá” garante ao Festival de Torino o conforto da invenção

(Fotos: Divulgação)

Neste ano em que o Brasil anda devorando prémios e elogios nas maiores competições de cinema do mundo, o Festival de Torino, que inaugura a sua 37ª edição nesta sexta-feira, abre as janelas da Itália – e de toda a Europa – para um transgressor de linguagens que fez do lúdico sua vereda de invenção: o realizador Bruno Safadi, escolhido para o evento com Sofá.

O título, referente a um móvel de sento perdido no meio ao caos do Rio de Janeiro, é simples, mas o filme a ele associado carrega, na sua poesia, uma complexidade (convidativa) que desafia as convenções de género. Começa pela escolha do elenco. De um lado está Ingrid Guimarães, a mais rentável comediante do Brasil em circuito, responsável pela milionária arrecadação nas bilheteiras da franquia De pernas pro ar; do outro, há Chay Suede, um dos galãs classe AA da TV, que arrebatou adjetivos inflamados à frente de Rasga Coração (2018). Durante as filmagens, em 2017, os dois caminhavam pelas ruas em trajes que mais pareciam com os de moradores de rua em condição de pobreza extrema. Cruzaram a (dita) Cidade Maravilhosa carregando uma poltrona velha, bem suja. É ela o foco da dramaturgia desta tragicomédia de baixíssimo orçamento pilotada pelo realizador do filme de culto Éden (2002), com foco nas falências morais dos cariocas.

Sempre que eu posso atravessar a calçada e ir para o outro lado do cinema, numa linha mais autoral, como a do Safadi, eu vou“, disse Ingrid, no meio da rodagem de Sofá, que entrou em Torino na mostra Waves.

Produzido pelo judoca reformado Cavi Borges (de Guerra do Paraguay), o filme trava um diálogo com outro hit de Safadi, O Prefeito, que representou o Brasil em importantes festivais no exterior, em 2015 e 2016. Tanto que o protagonista de lá, o alcaide cheio de TOCs vivido por Nizo Neto, volta aqui, acompanhado por um fiel mordomo (Gustavo Novaes). Ele é o algoz da dupla formada pelo pirata urbano Pharaó (Chay) e por uma ex-professora sem teto, Joana D’Arc (Ingrid), cuja casa foi removida pela Prefeitura. No enredo original, criado por Safadi, inspirado em Ernest Lubitsch (Madame DuBarry) e Jean-Luc Godard (Bande à Part), Pharaó pesca um sofá que Joana D’Arc reconhece como sendo o da casa dela. Para azar desta ex-educadora, que já não tem mais bens materiais, um ex-aluno dela que virou bandido, Ronaldinho (vivido por João Pedro Zappa, de Gabriel e a Montanha), vai aparecer no seu caminho. Eis a confusão… Só que o cineasta de 39 anos, laureado em 2008 na Mostra de Tiradentes por Meu nome é Dindi (um filme seminal para a edificação do espírito crítico das novíssimas gerações de realizadores do Brasil), transforma essa tal balbúrdia num poema visual.

Qual é o espaço de comédia que o teu cinema mais recente tenta desbravar? Que humor há em “Sofá”?

 “Sofá” é um tragédia paródica tropical. Hoje no Brasil, a paródia confunde-se com o parodiado. Quem vem antes, quem vem depois? O que era para rir torna-se algo para chorar. É no campo da tragédia que Sofá se desenvolve. Uma professora municipal vive em situação de rua, um aluno vira bandido, um jovem pescador é pirata na baía da Guanabara, um prefeito mata cidadãos que estão fora do seu projeto de cidade. Seria isso uma paródia ou o que vemos no Brasil de 2019?

Qual é o espaço para invenção que existe num exercício com astros do naipe de Ingrid Guimarães e Chay Suede? Há improviso? Qual?

O espaço de invenção em Sofá foi total. Por ser uma produção própria, sem recursos públicos, Sofá foi um filme para exercitar certos limites. Houve uma busca grande de experimentação na imagem, no som, nas atuações caricatas, na escalação de um elenco que carrega certo preconceito nos meios mais autorais. Quero ver qual a aceitação que o meio de cinema autoral pode ter com uma atriz popular como a Ingrid Guimarães, fazendo um cinema de caricatura, com imagens pintadas com viragens do cinema mudo, em um momento onde o cinema autoral é extremamente realista, híbrido entre o documentário e a ficção. Ter uma estreia mundial em Torino, e uma estreia brasileira para o mês que vem, faz o filme já estar no lucro.

Que terreno autoral você acredita ter demarcado de Dindi (2007) para cá?

Eu sempre tive vontade de construir uma carreira longeva, de realizar entre 20 e 30 filmes ao longo da vida. Continuo com esse desejo. Já são 7 longas-metragens, 5 curtas. Estou para filmar em Janeiro a minha oitava longa-metragem e tenho pelo menos três ideias para desenvolver e filmar. Tive filmes com apoio de dinheiro público mas boa parte dos filmes que fiz foram resultados de ações entre amigos e colaboradores. Foram filmes muito pequenos que conseguiram entrar em festivais de muito prestígio na Europa, na América Latina e no Brasil. Fabio Andrade, crítico de cinema, disse-me, à época do meu filme anterior, O prefeito” que eu tinha conseguido milagres ao estrear em festivais como Locarno e Roterdão, seguidos de longas-metragens de 10 mil dólares. Sofá é mais um desses filmes. Passados todos esses anos e todos esses filmes, eu tenho dimensão e orgulho do caminho pavimentado. Fiz uma trilogia (Operação Sonia Silk), um coletivo de 4 filmes (Tela Brilhadora), produzi os últimos filmes do Julio Bressane e tenho uma produtora, a TB Produções, em parceria com a Tande Bressane, com 21 longas-metragens produzidas em 20 anos de existência. Uivo da Gaita tem 10 milhões de views no Youtube. Foram muitas conquistas que me dão muito tesão para continuar. A vida é feita de afirmações diárias… e eu digo sim.

O quanto a sua passagem pela TV oxigena o teu olhar?

A TV trouxe-me outras perspetivas na realização. Ela trouse-me a possibilidade de filmar com grandes equipes e grandes orçamentos tipos muito diferentes de cenas, a realizar obras de grande apelo popular, com dezenas de milhões de espectadores todos os dias. Trabalhar nessas grandes produções, com gravações praticamente diárias, ensinou-me muito no ato de dirigir atores, de posicionar câmaras, de conhecer intimamente o uso das lentes e de trabalhar para um grande público. Sou grato à TV por me possibilitar praticar, por me dar condições financeiras para criar meu filho, pagando escola, plano de saúde e tudo o que uma criança exige; e para continuar a sonhar e a fazer o que eu amo.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/bo4f

Últimas