Classe Operária é o título em português atribuído a Moonlighting (1982), produção que o Festival de Cannes revisitou nesta tarde, na secção Classics, numa versão restaurada em 4K. A imagem de um jovem Jeremy Irons a partir reboco de parede ajudou a eternizar o filme de Jerzy Skolimowski, distinguido na própria Croisette, nos anos 1980, com o prémio de Melhor Argumento. Mais do que reaproximar o público francês de Irons — recentemente visto em Palestine 36 —, a sessão devolve ao circuito cinéfilo um dos nomes mais inquietos do cinema polaco moderno.
Aos 88 anos, celebrados no passado dia 5, Skolimowski prepara já um novo projeto, Angel of Death, previsto para o segundo semestre. O protagonista será Shia LaBeouf, igualmente responsável pelo argumento, adquirido pelo realizador polaco com evidente entusiasmo criativo. Em Angel of Death, LaBeouf interpreta um patologista judeu forçado por Josef Mengele a participar em experiências médicas no campo de concentração de Auschwitz, durante a II Guerra Mundial.
Será difícil sair incólume desse mergulho nos horrores do nazismo, tal como ninguém atravessa Moonlighting sem marcas. Skolimowski — que esteve no Brasil em 2010 para uma retrospetiva no Festival do Rio — sempre filmou personagens em estado de fricção. Há cerca de quatro anos, voltou a conquistar projeção internacional graças à circulação incessante de EO, hoje disponível na plataforma MUBI.
“A última coisa que um artista deve fazer é ser aborrecido. A penúltima é repetir-se, consciente do próprio esgotamento. A terceira é ignorar a força plástica do plano”, afirmou Skolimowski ao C7nema, aquando da participação em The Burnt Orange Heresy.

Nomeado para o Óscar de Melhor Filme Internacional em 2023, EO tornou-se uma das aquisições de maior visibilidade da MUBI. O protagonista é um burro; a sua sina, sobreviver. As memórias da Polónia do final dos anos 1930 e início dos anos 1940 fazem com que Jerzy Skolimowski regresse constantemente à ideia de sobrevivência. É também disso que trata Moonlighting, título que competiu à Palma de Ouro.
Nesse filme, agora revisitado por Festival de Cannes, Nowak (Jeremy Irons), um empreiteiro polaco, leva um grupo de operários para Londres, onde irão fornecer mão-de-obra barata numa obra ligada ao governo. Sendo o único capaz de falar inglês, utiliza essa vantagem para controlar os colegas, confrontados com a solidão e as tentações da capital britânica. Quando a Polónia mergulha numa intervenção militar, Nowak vê-se perante uma realidade mais dura do que antecipava. É o acaso — elemento central no cinema de Skolimowski — a interferir numa mise-en-scène onde artes plásticas, cinema e desencanto humano coexistem.
Filmes premiados, mas hoje algo esquecidos, como The Lightship, Success Is the Best Revenge e Barrier, garantiram ao realizador um lugar permanente nos maiores festivais internacionais. Hollywood também soube aproveitar o seu carisma, visível em Mars Attacks! e The Avengers. São mais de seis décadas de carreira numa cinematografia polaca marcada por gigantes como Andrzej Wajda, Krzysztof Kieślowski, Agnieszka Holland e Roman Polanski, seu colega de juventude e parceiro em Knife in the Water, onde colaborou como dialoguista. Mais recentemente, voltou a trabalhar com Polanski em The Palace.
“Se existe algo a que chamam humanismo — mistura de perplexidade e empatia —, o meu nasce das figuras marginais.”, disse Skolimowski ao C7.
O Festival de Cannes segue até ao dia 23 de maio.

