Ainda antes de avançar para o formato de longas-metragens, o islandês Rúnar Rúnarsson já dava nas vistas depois de lançar duas curtas-metragens – “The Last Farm“, de 2004, e “2 Birds“, de 2008- que mostravam uma maturidade invulgar para um cineasta tão jovem, fosse no olhar para a primeira idade ou adolescência, como para os momentos impactantes da vida adulta. “Volcano” (2011) e “Sparrows” (2015) confirmaram o talento, ora circundando vidas adolescentes transformadas por comoção familiar, ora circulando pela mortalidade e solidão após o imprevisto, obrigando a transformações pessoais. A última vez que o vimos nas salas foi em 2019, com “Echo – Mosaico de Natal”, regressando agora em 2024, como filme de abertura e competidor da Un Certain Regard, o doído “When the Light Breaks”, um ensaio adulto novamente imbuído no universo da juventude, onde amor, adultério, luto e processo de cura se mesclam com poder e prudência.

As primeiras cenas do filme não indicam qualquer tragédia no horizonte, apenas amor numa relação que pode abalar um grupo de amigos. Mas rapidamente o cineasta avança para o descalabro emocional, quando uma tragédia coletiva e pessoal atinge um grupo de amigos, mas em particular Una (Elín Hall), que mantinha uma relação às escondidas com Diddi (Baldur Einarsson), falecido de forma repentina após uma tragédia. Não sabendo como lidar com a perda do seu “amante secreto”, esta jovem vai ter de passar pelo ambiente funesto em torno da morte dele, tendo de interagir com a namorada (oficial) do rapaz, Klara (Katla Njálsdóttir), também ela “feita em cacos” após a morte do rapaz. O lidar com a morte em ambiente de juventide, impreparados na sua totalidade para lidar com o tema, acaba por ser o pano de fundo do filme, mas é na proximidade que se estabelece na relação entre Una, a amante, e Klara, a namorada, que o filme ganha uma dimensão especial e essencial, observando Rúnarsson essa dinâmica com grande atenção, recorrendo para isso a ferramentas dramáticas fundamentalmente naturalistas.  

No essencial, este é mais um filme de transformações, depois de uma morte imprevista, mas em vez de atacar diretamente essa “mudança”, o cineasta dá espaço e atenção ao processo anterior, o de percepção real da morte de alguém. E, para isso, usa apenas poucos dias de intervalo entre o evento destruidor e as suas consequências, encarcerado as personagens e o espectador, numa toada lúbrege.

O resultado é um filme doloroso e extremamente reflexivo que, embora não tenha o poder dos seus trabalhos anteriores, mantém-no na liga dos cineastas mais interessantes da atualidade em paisagens islandesas e europeias. E com isso, “When the Light Breaks” foi um intenso e doloroso arranque da Un Certain Regard do Festival de Cannes.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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