About Endless, do qual Andersson apresentou trechos que já estavam filmados na edição do Festival de Sevilha de 2018, surge agora na versão integral – um pitoresco e muito singular mosaico da vida humana.

O cineasta sueco, que este ano não veio à Andaluzia, foi citado na conferência de Elia Suleiman, com o qual tem algum parentesco: o facto de propor uma visão cadenciada, contemplativa e acutilante sobre um mundo que parece cada vez mais caótico e acelerado.
Mas Andersson é menos acessível que Suleiman e os seus simbolismos são menos reconhecíveis: enquanto em It Must Be Heaven, por exemplo, o palestiniano propõe algumas questões direcionadas a aspectos notórios da sociedade ocidental (o militarismo, a agressividade, a violência institucional), Andersson gravita mais livremente sobre os pequenos aspetos quotidianos que demonstram uma finalidade menos pragmática e objetiva.
Essencialmente, ele parece sugerir que os humanos vivem realidades paralelas e dificilmente comunicáveis entre si. Para além das barreiras da falta de sintonia entre as pessoas, Andersson está a cristalizar o desfasamento entre as angústias existenciais e o prosaico do quotidiano. Num episódio, um homem chora desconsolado num comboio porque “não sabe o que quer”, enquanto outro passageiro reclama “porque ele não vai sofrer em casa?”. Noutra sequência, um padre desesperado por “ter pedido a fé” pede ajuda a um médico. Este recusa-se porque se o atender vai perder o autocarro.
A religião não parece solucionar estas demandas: para além da falta de fé, o padre sofre com um pesadelo que traz alguns dos signos recorrentes no filme: o cristianismo enquanto fonte de sofrimento, de martírio e de culpa. É o caso de uma situação em que um padre acompanha um grupo de homens numa execução, com o condenado a implorar em vão por clemência.
A comunicação entre humanos pode não ser fácil, mas Andersson não deixa de apresentar em diversos momentos uma crença no amor romântico: num dos “sketches”, um homem observa com grande prazer o seu par a tomar champanhe, enquanto a voz em “off” diz: “Vi uma mulher que adorava champanhe”. Noutro, que bem poderia simbolizar o voo livre do cineasta sobre estes fragmentos de vida, um casal apaixonado voa ao som de música clássica sobre as ruínas de uma cidade destruída.
Tudo em planos fixos, rigorosamente cenografados, ocasionalmente com música clássica, com a limpeza e a clareza da imagem em contraste com as poucas certezas que envolvem as existências dos seus personagens.

