Pérolas de Cannes, Veneza e Berlim em San Sebastián

Minotaur, de Andrey Zvyagintsev, abre a Perlak de San Sebastián, que reúne 16 longas-metragens premiadas ou apresentadas em Cannes, Berlim, Sundance e Veneza.

O Festival de San Sebastián, que realiza a sua 74.ª edição de 18 a 26 de setembro, escolheu Minotaur, de Andrey Zvyagintsev (na foto acima), para inaugurar a secção Perlak (Pérolas), uma das montras mais prestigiadas do certame espanhol e tradicionalmente dedicada a reunir filmes que passaram pelos grandes festivais internacionais. A nova obra do realizador russo, vencedora do Grande Prémio do Júri em Cannes, encabeça uma seleção de 16 longas-metragens na qual se concentra boa parte do que de mais relevante foi apresentado no circuito internacional ao longo do ano. Cannes é a principal fonte desta programação, com 11 títulos que passaram pelo festival francês, incluindo a Palma de Ouro, prémios de realização e de interpretação, enquanto outras das obras mais aguardadas chegam de Berlim, Sundance e, sobretudo, de Veneza, que entra agora em curso e deverá fornecer mais um dos grandes blocos de títulos para a temporada europeia de outono. O encerramento de Perlak ficará a cargo de Juste une illusion, de Olivier Nakache e Eric Toledano, exibido fora de competição.

O regresso de Andrey Zvyagintsev a San Sebastián ganha um peso especial porque o realizador russo já havia apresentado em Perlak Nelyubov / Loveless (2017) e agora regressa com Minotaur, uma adaptação livre de La femme infidèle (1969), de Claude Chabrol. O filme acompanha Gleb, um empresário de sucesso cercado por crescentes pressões corporativas e por um mundo cada vez mais instável, até que a vida organizada que construiu começa a desmoronar-se e o conduz em direção à violência. A presença do cineasta na abertura também recupera uma trajetória marcada pelos grandes festivais europeus: a sua primeira longa-metragem, The Return (2003), conquistou o Leão de Ouro em Veneza, enquanto The Banishment (2007) valeu a Konstantin Lavronenko o prémio de interpretação masculina em Cannes, Elena (2011) recebeu o Prémio Especial do Júri de Un Certain Regard e Leviathan (2014) venceu o prémio de argumento em Cannes e tornou-se o primeiro filme russo a conquistar o Globo de Ouro, além de ter sido nomeado para o Óscar.

Entre os títulos que chegam diretamente do circuito de Cannes, a seleção reúne alguns dos realizadores mais reconhecidos do cinema contemporâneo. Fatherland, de Paweł Pawlikowski, chega com o prémio de Melhor Realização ex aequo conquistado no festival francês e revisita a Europa do pós-guerra a partir da relação entre o escritor Thomas Mann, vencedor do Nobel, e a filha Erika, atriz, escritora e piloto de ralis, num percurso de carro por uma Alemanha em ruínas no verão de 1949. Também premiado em Cannes está La bola negra, de Javier Ambrossi e Javier Calvo, que venceu a realização ex aequo e entrelaça as vidas de três homens em diferentes épocas, tendo como eixo a sexualidade, o desejo, a dor e a herança, a partir de uma das obras inacabadas de Federico García Lorca. Já Fjord, de Cristian Mungiu, chega com a Palma de Ouro, o Prémio do Júri e o FIPRESCI, acompanhando uma família romeno-norueguesa muito religiosa instalada numa comunidade isolada junto a um fiorde, onde suspeitas sobre os métodos de educação dos pais abalam o equilíbrio entre os moradores.

A constelação de Cannes inclui ainda Coward, de Lukas Dhont, que valeu a Emmanuel Macchia e Valentin Campagne o prémio de Melhor Interpretação Masculina ex aequo. O filme acompanha dois soldados da Primeira Guerra Mundial que encontram, no meio da brutalidade das trincheiras, um espaço de amor e arte. Dhont mantém assim a ligação com San Sebastián iniciada com Girl, exibido em Perlak em 2018, depois de vencer a Câmara de Ouro em Cannes e conquistar o Prémio do Público e o Sebastiane no festival espanhol. Outro nome de peso é Ryusuke Hamaguchi, que apresenta Soudain / All of a Sudden, protagonizado por Virginie Efira e Tao Okamoto, vencedoras ex aequo do prémio de interpretação feminina em Cannes. A presença do realizador japonês reforça uma relação antiga com San Sebastián, onde já passou por New Directors e Perlak com obras como Drive My Car, vencedor do Óscar de Melhor Filme Internacional, e Evil Does Not Exist.

“Hope” foi um dos destaques de Cannes

Também procedente da competição de Cannes, Hope marca a estreia de Na Hong-jin no Festival de San Sebastián e mistura ação, humor e ficção científica numa história de ameaça alienígena protagonizada por Michael Fassbender e Alicia Vikander. O realizador sul-coreano tem uma longa história com o festival francês, onde apresentou The Chaser, The Yellow Sea e The Wailing. Wild Horse Nine, de Martin McDonagh, leva para Perlak um elenco formado por John Malkovich, Sam Rockwell e Steve Buscemi numa trama ambientada pouco antes do golpe de Estado chileno de 1973, quando dois agentes da CIA são enviados para a Ilha de Páscoa. McDonagh já havia conquistado o público de San Sebastián com Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, vencedor do Prémio do Público em 2017, e regressa agora com uma obra que combina conspiração, passado político e relações pessoais.

A secção também terá forte presença de autores que chegam de outros grandes festivais. Depois da estreia em Veneza, Nanni Moretti apresentará Succederà questa notte / It Will Happen Tonight, rodado parcialmente em San Sebastián em 2025 e protagonizado por Louis Garrel e Jasmine Trinca. O filme acompanha Matteo, que conhece Greta quando uma mulher vestida de noiva invade um campo de ténis, e transforma esse encontro casual numa história de sete anos de desencontros e possíveis reencontros. Moretti é um velho conhecido de Perlak, onde já apresentou La stanza del figlio, Palma de Ouro em Cannes, além de ter encerrado a secção em 2015 com Mia Madre. A seleção também recupera a ligação com a Berlinale através da trajetória de Ira Sachs, cujo The Man I Love, com Rami Malek, Rebecca Hall, Luther Ford, Ebon Moss-Bachrach e Tom Sturridge, acompanha um artista underground na Nova Iorque do final dos anos 1980, num momento decisivo em que beleza e amor ainda parecem possíveis.

A animação surge em dose dupla na edição deste ano. Le corset / Iron Boy é a estreia a solo de Louis Clichy, conhecido pelas animações de Astérix realizadas com Alexandre Astier e antigo integrante da Pixar, onde trabalhou em títulos como WALL-E e Up. Premiado em Cannes e Annecy, o filme acompanha Christophe, um menino de 11 anos que precisa de usar um colete metálico por prescrição médica e, afastado temporariamente das tarefas da quinta familiar, descobre novos interesses, como a natação e a música. Já Tangles é a primeira longa-metragem da canadiana Leah Nelson, exibida como Projeção Especial em Cannes, com vozes de Julia Louis-Dreyfus, Abbi Jacobson, Bryan Cranston e Seth Rogen. A história acompanha Sarah, uma artista e ativista que regressa à pequena cidade natal para cuidar da mãe com Alzheimer e precisa de confrontar tanto a doença como a sua própria família.

A secção completa-se com Josephine, segunda longa-metragem de Beth de Araújo, que chega a San Sebastián depois de conquistar o Prémio do Público e o Grande Prémio do Júri em Sundance e passar pela competição da Berlinale. Com Channing Tatum e Gemma Chan no elenco, o filme aborda o trauma de uma menina que presencia uma violação e passa a apresentar comportamentos violentos e sinais de paranoia. Club Kid, estreia de Jordan Firstman na realização de longas-metragens, passou por Un Certain Regard em Cannes e acompanha um promotor de festas underground de Nova Iorque cuja vida de excessos é virada do avesso quando uma mulher aparece com um menino de 10 anos que afirma ser seu filho. E The Invite, de Olivia Wilde, combina sátira, comédia e drama para acompanhar um casal em crise que convida os novos vizinhos para jantar e acaba mergulhado em confissões, desejos ocultos e situações desconfortáveis. Wilde regressa a San Sebastián depois de apresentar Don’t Worry Darling em Perlak, em 2022.

Todas as obras da seleção, com exceção de Juste une illusion, concorrem ao Prémio do Público Ciudad de Donostia / San Sebastián, numa secção que, mais uma vez, funciona como ponte entre a temporada dos grandes festivais e o circuito europeu de outono. Com Minotaur a abrir a programação e títulos premiados em Cannes e oriundos de Berlim e Veneza a compor boa parte da oferta, Perlak chega à 74.ª edição de San Sebastián como uma síntese do momento atual do cinema de autor internacional — justamente quando o Festival de Veneza, prestes a começar, se prepara para alimentar a próxima leva de filmes que deverá dominar a conversa cinéfila nas semanas seguintes. Armani Beauty, patrocinador oficial de beleza do Festival, é o patrocinador da secção Perlak.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/y5pl

Destaques