Un Triomphe: Filme de abertura da edição pocket de Cannes mobiliza plateias no Brasil

(Fotos: Divulgação)

Um ano e seis meses depois da sua consagradora projeção na abertura do Festival de Cannes de 2020, uma edição pocket com apenas quatro longas-metragens, realizada simbolicamente em função da pandemia, “Un Triomphe“, do ator e realizador francês Emmanuel Courcol, chega às telas do Brasil, a mobilizar milhares de pagantes, em pleno Carnaval. Por conta da covid-19, e dos casos da variante Ómicron, desfiles e blocos carnavalescos que, anualmente, contagiam os brasileiros em fevereiros foram adiados para abril, aproveitando o feriado de Tiradentes (21.04) como catapulta. As distribuidoras de filmes que não de Hollywood, como a Imovision, sabem que esses festejos costumam propiciar um aumento de frequência de espectadores às salas exibidoras, atraindo quem não dá muita atenção aos folguedos de Rei Momo (a folclórica figura do Carnaval). E a longa de Courcol acabou entrando em cartaz, agora, com o título de “A Noite do Triunfo”. Já lançada em solo português em VOD com o nome “Um Triunfo“, a produção irradia carisma do ator Kad Merad (aquele que arrastou 2o milhões de franceses para rir com “Bienvenue chez les Ch’tis” em 2008) e do prestígio de Courcol.

Diante da realidade de privação que a pandemia impôs, era relevante ter um filme otimista e acredito na força de um cinema que se propõe a ser popular e preservar a sua qualidade”, diz Courcol ao C7nema, por email.  
A sua trama baseia-se na experiência do diretor de teatro sueco Jan Jönson que, usando o palco do Royal Dramatic Theatre, em Estocolmo, em meados dos anos de 1980, como uma arena de reabilitação dos detidos da prisão de Kumla. Um facto específico guiou o realizador de 64 anos nesse diálogo com a vida real: ao encenar Esperando Godot, de Samuel Beckett (1906-1989), com uma trupe carcerária, em 1985, Jönson ficou sozinho no palco, pois o elenco fugiu. Anos depois, ele montou o mesmo espetáculo nos EUA, também com presos, agora da cadeia de San Quentin. No filme, Merad assume a figura de Jönson. Mas os nomes mudam. Ele vira Étienne Carboni (Merad), encenador que se habilita a montar Beckett com presos. Interpretando Carboni, Kad foge dos dispositivos de gargalhada óbvia e bruta, apostando numa investigação profunda da alma de um artista que se encontra alquebrado, pela falta de holofotes e pela idade. 

Mantive o fio condutor da aventura vivida por Jan Jönson e dos seus atores, mas reinventei as personagens, tornando-os criações originais”, explica Courcol ao C7nema. “O perfil de Boïko, por exemplo, não era conhecido nos relatos, assim como o perfil Kamel, o chefe, que toma o lugar de Nabil. Eu tinha que encontrar novas molas dramáticas e apostar no inesperado para evitar cair numa narrativa excessivamente linear, calcada numa uma sucessão de sessões de ensaio e performances, mantendo-me fiel ao espírito da história original. Mas, além da invenção, usei alguns grandes momentos da vida real, daquela história, como quando eles começam a declamar as suas falas à noite das janelas das suas celas. Apesar de todas essas liberdades, Jan gostou muito deste filme e ficou muito comovido, porque encontrou nele a alma e o espírito de sua própria aventura”.


Aplaudido em Locarno, em 2016, por “Cessez-le-feu” (Cessar Fogo), Courcol elogia o método de atuação de Merad. “Kad comprometeu-se com o projeto com grande generosidade. Ele não intelectualiza a abordagem da personagem, apoiado num instinto fenomenal. Ele trabalha de forma muito descontraída e constrói o seu desempenho com grande requinte. É o seu relaxamento, a sua concentração imediata, o aspeto que mais me impressiona nele. Também apreciei muito o seu prazer em compartilhar o processo de criação com os seus parceiros. Ele era a alma da trupe”, diz o cineasta.

Em 2023, ele volta às telas, como realizador, com uma trama ambientada no interior da França, centrada numa banda de música, na cena das fanfarras. “É a história de dois irmãos que têm perfis diferentes e se reencontram”, diz Courcol. “Vou seguir nessa linha de Un Triomphe de misturar histórias afetivas e crítica social”.  

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