Cannes: a primeira vez

(Fotos: Divulgação)

Costuma-se dizer na gíria que nunca se esquece a primeira vez, mas no caso do Festival de Cannes, a primeira vez não aconteceu, ou seja, se preferirem, como Gilles Jacob diz, o Festival de Cannes surgiu como um nado-morto, em 1939, isto depois da vila do sul de França ter concorrido e ganho –  com grande ajuda da hotelaria local – a Biarritz na escolha do local para o evento.

Diz a História que a primeira edição do Festival de Cannes deveria ter decorrido nas duas primeiras semanas de setembro de 1939, mas tal nunca chegou a acontecer devido à entrada da Inglaterra e da França na Segunda Guerra Mundial. Na verdade, seria no dia 2/09 que começaria o certame, mas um dia antes a Alemanha invade a Polónia e faz estalar o conflito global. “O Corcunda de Notre Dame” ainda foi exibido na noite de estreia, mas logo depois tudo seria cancelado.


O Corcunda de Notre Dame‘ de William Diertele

Na verdade, Cannes foi idealizado como uma resposta ao avanço fascista que açambarcou a liderança do Festival de Veneza, evento inaugurado em 1932 numa profunda colaboração com o Instituto Educacional Internacional de Cinema, organismo instituído em 1928 pela Liga das Nações em resposta à carnificina da I Guerra Mundial. Seis anos depois, o fascismo dominava a estrutura do festival, com Joseph Goebbels a “cortar a fita” da sua edição em 1937 e a pressionar para que “The Grand Illusion” de Jean Renoir não ganhasse o principal prémio do evento, afastando decisivamente França, Inglaterra e os EUA do evento. 

Cannes, que em 1939 deveria ser “o festival das democracias contra as ditaduras“,  regressaria apenas em 1946, ainda muito longe da forma de cinema de autor que agora predomina – instituída na década de 1970. Nesses tempos, o festival era muito mais próximo do popular, humanista e pacifista (por isso mesmo, o filme de Alain Resnais “Noite e Nevoeiro” viu entraves na sua exibição, como veremos mais tarde). 

Essa edição, sete anos depois do originalmente planeado, decorreu cheia de peripécias: Na noite de estreia, durante a exibição do documentário soviético “Berlin”, o projetor estourou e  depois houve uma falha de energia. Diz-se também que “Notorious”  (Interlúdiobr; Difamaçãopt) de Alfred Hitchcock não figurou entre os vencedores porque provavelmente as suas bobinas foram exibidas fora de ordem. 

E por falar nas primeiras vezes, Cannes atribuiu a sua primeira grande distinção nesse ano, o Grande Prémio Internacional, a “Brief Encounter” (Breve Encontro) de David Lean, com o realizador e a atriz Celia Johnson a receberem a distinção das mãos de Georges Huisman, o presidente do Festival.

A famosa Palma de Ouro só surgiu em 1955, desenhada por uma artista de joalheria, Mme Lauzon. Em 1963 regressou-se ao “Grande Prémio Internacional” e só em 1975 a Palma impôs-se e deixou de ser posta em causa. 

Outra mudança também veio com o tempo. Inicialmente, uma vez que um realizador ganhava a Palma de Ouro os filmes que se seguiam eram exibidos fora de competição. A exceção – e consequente mudança de planos – aconteceu com Francis Ford Coppola, que ganha em 1974 o prémio máximo com “O Vigilante”, e regressa cinco anos depois com “Apocalypse Now”, triunfando novamente, a meias com “O Tambor” de Schlöndorff. Consta que apesar de ser pioneiro na conquista de duas palmas, Coppola não gostou de partilhar o primeiro prémio, dizendo que na verdade “ganhou apenas meia palma”. Desde aí, vários cineastas ganharam duas ou mais prémios, como Shoei Imamura, Bille August, os irmãos Dardenne ou Ken Loach. E não esquecer o duplo triunfo de Alf Sjoberg (1946-1951), mas nessa era ainda não era atribuída a graciosa Palma de Ouro.

Bárbara Virgínia

Noutras primeiras vezes,  coube à portuguesa Bárbara Virgínia ser a primeira mulher com um filme em exibição na edição inaugural de Cannes (Três dias sem Deus, de 1946), sendo precisos doze anos para pela primeira vez surgirem dois filmes assinados por mulheres na competição: “Memories of a Mexican”, correalizado por Salvador e Carmen Tocano; e “Love Letter.”, de Kinuyo Tanaka.

Em 1957 temos a primeira mulher com um lugar no júri, a mexicana Carmen Del Rio, e em 1961 a primeira conquista de uma mulher do prémio de realização: a soviética Yuliya Solntsevaa por “The Story of the Flaming Years.”

Só em 1965 o festival teve pela primeira vez uma mulher na presidência do júri, Olivia de Havilland: “Presidir um júri só de homens foi, claro, uma experiência deliciosa“, lembrou ela, “mas ao mesmo tempo uma responsabilidade temível.

Só 33 anos depois, e pela primeira vez, o júri é composto por 50% de mulheres, estando reservado para 2021 a primeira vez na História que nos jurados há mais mulheres que homens (5-4).

A primeira, e única “conquista” no feminino da Palma de Ouro, coube a Jane Campion por “O Piano”, já no distante ano de 1993. 

Ainda nas primeiras vezes, 2021 marca também a primeira vez que uma pessoa negra preside o júri do festival, uma nova conquista depois de a franco-senegalesa Mati Diop em 2019, por “Atlantique“, ter sido a primeira mulher negra a concorrer à Palma de Ouro. 

No campo masculino, o pioneiro africano no festival foi o egípcio Youssef Chahine ainda nos anos 50 (Ibn el Nil, 1952), com o maliano Souleymane Cissé a ser a primeira pessoa negra a ser distinguida (Prémio do Júri) em 1987 por “Yeelen“.

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