Entre o realismo e o misticismo, Atlantique triunfa e demonstra ser um dos filmes mais interessantes do ano

Dez anos depois de Atlantiques, curta-metragem que acompanhava uma conversa de jovens senegaleses sobre as vantagens e entraves de migrar ou não para Espanha, Mati Diop estende o conceito em jeito de fábula de emancipação com um toque sobrenatural capaz de agarrar o espectador entre a realidade e o inatingível sem cair na tentação do pretensiosismo.
Novamente no Senegal, assistimos à história de amor proibido entre Souleiman e Ada, dois jovens entregues a tradições, destinos e à inabilidade do seu país em lhes gerar um futuro risonho. Ele tem sonhos de emigrar, ela de escapar às armadilhas sociais a que as mulheres estão entregues, nomeadamente a um casamento planeado pela família com um “bom partido” senegalês. Quando Souleiman desaparece após entrar numa embarcação a caminho de Espanha, realidade, misticismo e espiritualidade emaranham-se numa saga de soberania e independência pessoal, com um toque de vingança esfíngica.
É uma boa continuação formal e ideológica de uma jovem cineasta que segue a linhagem estética dos seus trabalhos anteriores, em particular Mille Soleils, filme que passou discretamente no IndieLisboa e que acompanhava o tio da atriz, um antigo ator, nos tempos atuais entre os esquecimento, o remorso e os sonhos falhados. Aqui o sonho cumpre-se, criando a cineasta na figura de um detetive que investiga estranhos incêndios o elemento chave do cruzamento entre mundos: espiritual e o palpável, o real e o transcendental.
Um belo filme, trabalhado com uma crueza bruta na linguagem cinematográfica, que felizmente foge aos estereótipos contemporâneos do onanismo cinematográfico, tão vincado na geração de cineastas de Diop. Aqui há demasiada cabeça, coração e verdadeiro amor pelas personagens e tema, e não apenas exercícios egocêntricos e ocos de estilo mascarados de alegorias.

Jorge Pereira

