Vencedor da Concha de Ouro de 2012 por “Dans La Maison”, visto por 1.195.518 espectadores em França (e mais uma multidão mundo afora), o parisiense François Ozon tem lançado uma longa-metragem por ano, sem falhar, de 2016 até hoje. Antes dessa data, já havia criado uma obra prolífica, pontuada por blockbusters de luxo, como “8 Femmes” (3.571.508 espectadores), e por estudos mais audaciosos dos conflitos da sociedade, tipo “Grâce à Dieu”, pelo qual ganhou o Grande Prémio do Júri da Berlinale, em 2019. De vez em quando, ele arrisca em apostar em projetos rasgadamente pop, como foi o caso do vaudeville “Mon Crime”, em 2023. Esses números e muitos prémios fizeram dele uma grife que consegue ser ao mesmo tempo lucrativa e prestigiante(ainda que sem invenções formais), de olhos abertos para temas que desafiam tabus morais. Não é por acaso que o seu filme de 2024, o drama “Quand Vient L’Automne” (Quando Chega o Outono), tenha chegado à competição oficial do Festival de San Sebastián com a aura de campeão de bilheteiras, abraçando a provocação ao falar da velhice sob a ótica de uma ex-prostituta que largou o meretrício quando se tornou avó. Não se esperaria que ele falasse dos efeitos tempo (e da sombra da finitude) sem resvalar em arquétipos que desafiam as normas do dito “bom comportamento” do Velho Mundo. Afinal, Ozon é um realizador autor. Essa é sua marca.
Estruturado a partir de uma paleta de cores branda, outonal como o seu título sugere, “Quand Vient L’Automne” é fortalecido pela atuação contagiante de Hélène Vincent, capaz de gravitar com fluidez entre a serenidade e a aflição. Ela vive Michelle, uma septuagenária que um dia foi prostituta. Guardou dinheiro, montou um apartamento em Paris e ergueu uma casa no campo num vilarejo da Borgonha. Passa os dias lá, entre conversas com a sua melhor amiga, Marie-Claude (Josiane Balasko), cujo filho, Vincent (Pierre Lottin), está a sair da cadeia, depois de uma condenação. O neto de Michelle, Lucas (Garlan Erlos), vai passar as férias com ela. Pelo menos esse era o combinado com a filha, Valérie, encarnada com precisão por Ludivine Sagnier num registo de antipatia e egoísmo.
No apogeu do seu aconchego, Michelle vê os planos descambarem no momento em que, num jantar, por um descuido (ao que parece), ela serve para Valérie um prato de cogumelos que envenenam a moça. Por um lado, tudo parece apenas um deslize. Por outro, os anos de mágoa que a protagonista acumulou na sua jornada maternal podem estar a dar sinais de reação, mesmo contra a sua própria cria, uma vez que a personagem de Valérie não demonstra um pingo de empatia pela mãe. Existe ainda a hipótese de que as muitas primaveras vividas estejam a comprometer a lucidez de Michelle. É mais do que esquecimento: há uma erosão anunciada, de mente e de corpo.
Nessa toada pela qual a trama começa, tudo parece indicar um estudo sobre a arte de lidar com o avanço dos anos. O guião vai assim até um incidente que envolve Vincent mudar o registro – à moda do que Ozon fez em seu primoroso “L’Amant Double”, nomeado à Palma de Ouro de 2017 – e pender a película para uma trilha rocambolesca de reviravoltas quase policiais. Entra em cena até um componente misterioso quase sobrenatural (mas que também pode ser um delírio da senilidade). Jamais se perde o foco das inquietações existenciais em relação à sofreguidão imposta pelo excesso da idade e à ronda da Morte, mas Ozon consegue abrir veredas investigativas que inquietam ainda mais a narrativa, num domínio pleno da dramaturgia. Há algo de Eric Rohmer (o Rohmer de “Le Rayon Vert”) no argumento, em relação à contemplação da natureza e do inesperado, mas há muito mais do próprio Ozon, sobretudo na discussão dos desconfortos da maternidade e o modo como se reconfigurarem os sistemas afetivos. O elenco em estado de graça amplia o inusitado dessa Comédia Humana na qual a honestidade pode ser torcida em prol da harmonia. o
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