“É nos silêncios, nos momentos que não se está à espera, que estou mais exposta“, explicou-nos a atriz Adèle Exarchopoulos no último Festival de Cannes sobre a sua personagem em Sibyl, o mais recente filme de Justine Triet.
A atriz, que começou a sua carreira aos 12 anos quando alguém lhe ofereceu a hipótese de participar num casting durante aulas de improvisação, ganhou fama pela sua performance, ao lado de Lea Seydoux, em A Vida de Adèle, mas aqui neste Sibyl desempenha o papel de uma atriz psicologicamente devastada por ter engravidado de um colega (Gaspar Ulliel) que é casado com a realizadora do projeto que está a filmar.
E apesar da sua personagem estar nos limites, Adele nunca se encontrou ainda nos limites da atuação, nem mesmo com Abdellatif Kechiche: “Quando filmo uma cena de sexo, não estou a mostrar a minha intimidade, mas a intimidade da personagem.segundo a visão de o realizador. Para mim é como se estivesse a “vestir” algo. Claro que é uma metáfora quando digo que “vesti” algo, mas procuro entregar a essência da personagem. Por exemplo, na cena de sexo do filme do Kechiche tento mostrar o que ela está a descobrir de forma carnal. (…) é no olhar das pessoas que amo que me sinto em perigo, não no público que não conheço“.
Abordagem feminina rara no cinema
Um dos pontos interessantes de Sibyl é que apresenta, através de três personagens femininas diferentes (a psicóloga, a paciente/atriz, a realizadora) alguns temas frequentes vistos no cinema, mas sob um olhar profundamente masculino que certa forma as reprime e condena: temas como a frustração, a infidelidade, a paixão reprimida, os remorsos do passado, e até a criatividade. “O filme é também como manipular o teu próprio mundo“, explica Adèle, que relativamente à sua personagem tem consciência que Justine Triet foi buscar inspiração no trabalho de Gena Rowlands com John Cassavetes. Segundo ela, o que mais admira em Justine Triet é a sua capacidade em apresentar personagens com uma enorme naturalidade, pessoas que são o que são: “as suas personagens femininas são sempre independentes, mães, e misturam em si sensações de desejo, frustração, como todos os humanos têm. Mas esse não é o tema do filme. (…) Eu gosto que a Justine apresente as coisas assim pois é como um “statement” de naturalidade. Elas são assim e não tens de as defender.“
Já sobre a influência dos homens na vida destas mulheres, Adele recorre mais uma vez a essa naturalidade e verdade que Triet retrata no filme: “quando há amor entre duas pessoas há muita influência, muitas fraquezas, contradições, no contacto um com o outro“. Assim, a jovem atriz afasta um cenário e mulheres à beira de um ataque de nervos por causa dos homens, mas sim a forma como são afectadas, tal como eles. A questão é que Triet foca a sua atenção nas mulheres e isso faz a diferença.
A pressão depois de A Vida de Adèle
Apesar de ter trabalhado antes desse filme noutros projetos, Adèle Exarchopoulos não tem dúvidas que esse papel mudou-lhe a sua vida como atriz. É que se a sua vida ficou igual, segundo as suas palavras, “continuou a ser a mesma“, em termos profissionais tudo ficou diferente: “os olhares das pessoas mudaram, as pessoas ficaram à espera de me ver fazer outras coisas, para julgar-me ou não. Passei a ter mais propostas de trabalho, mas simultaneamente tornei-me mais num objecto, em algo comerciável. As pessoas atiram dinheiro para os projetos que estás, por isso é um período difícil de decisões. Às vezes davam-me papéis que não conseguiria fazer, estilo… tinha 20 anos. Se um diretor não me ajudasse a construir a personagem, estaria perdida”.
Tendo consciência que as suas escolhas para atuar após A Vida de Adèle não foram as melhores, ela assume que aprendeu com esses erros e que essas más opções ajudam-na presentemente a aceitar os papéis. “A toda a hora comparam o meu desempenho no filme do Kechiche com os outros“, explicou-nos, acrescentando que e que ter sistematicamente de comparar – a pedido da imprensa – a presença num filme qualquer com o de Kechiche, é “como comparar ex-namorados e histórias que viveu com eles. Não existe inteligência neste tipo de reflexões“.
Novo projeto com Quentin Dupieux
Quentin Dupieux, que apresentou Le Daim (100% Camurça) este ano, já filmou o seu novo projeto, Mandibles, uma comédia com o duo de cómicos Palmashow (David Marsais e Gregoire Ludig) nos principais papéis e Adèle Exarchopoulos, India Hair, Roméo Elvis e Coralie Russier no elenco de apoio.
Descrita como uma comédia alucinada bem ao estilo do realizador de Pneu, Wrong Cops e Au Poste, Mandibles segue dois amigos que descobrem uma mosca gigante no porta-bagagens de um carro e decidem domar o animal para ganhar dinheiro. “É uma comédia a partir de um guião que ele escreveu em 10 dias. É Quentin Dupieux, é genial (…) mas estou cheia de medo“, disse Adele sobre o projeto que chegará aos cinemas em 2020.

