Ao pesarem os metais do rock’n’roll, inaugurando uma linhagem mais feroz para guitarras e vocais, a faixa The Number of the Beast, do disco homónimo lançado pelo Iron Maidenem 1982, com Bruce Dickinson a assumir os vocais, funcionou como um hino para o sentimento de desterro que varreu a juventude numa fase de degelo ideológico tanto da Europa como das Américas. Junte-se às perdas das sociologias mais empáticas a Guerra do Vietname, os conflitos no Irão e no Iraque, os fogos no Líbano, o combate armado nas Malvinas e inflações em proporções globais. Foi este o mundo em que a personagem de Kelson, heroína corroída vivida por Ralph Fiennes na franquia 28 Years Later, concluiu a sua formação em Medicina.
The Bone Temple, a irregular (mas ainda assim poética) parte III da série cinematográfica fundada em 2002, existe para falar da sua melancolia em relação ao que se perdeu e para retratar as suas formas de reinvenção. Fiennes está sublime, numa narrativa que se dispersa, mas nunca deixa de surpreender. Nia DaCosta comprova que o cinema de género é o seu espaço de maior vigor, ao contrário do que se viu em Hedda (2025).
A realizadora assume o terceiro segmento do projeto distópico 28 Days Later (2002) sem se submeter ao tom de Danny Boyle, que filmou os anteriores. O primeiro custou cerca de oito milhões de dólares e valeu 82 milhões. Em 2025, Boyle e o argumentista e escritor Alex Garland (que realizou Guerra Civil, 2024) resolveram retomar o universo com 28 Years Later, que teve um custo mais polpudo (60 milhões de dólares), mas valeu cerca de 150 milhões. Se vale lucro, gera sequências. Daí O Tempo dos Ossos, título português deste novo thriller, que escanteia um pouco os zombies.
No limiar de Night of the Living Dead (1968) nas salas de cinema, George A. Romero (1940-2017) convencionou o naturalismo como código sociológico dos filmes de zombies e fez deles uma alegoria do consumismo desenfreado imposto pelo capitalismo como signo de bem-estar. A sua cartilha foi copiada à exaustão em todo o mundo, no cinema, no streaming e na televisão, com guloseimas como a minissérie brasileira Reality Z (2020), a série global The Walking Dead (2010-2022) e o díptico sul-coreano Train to Busan (2016-2020), de Yeon Sang-ho. Pouco se viu de originalidade dramatúrgica no filão, que se protegeu da extinção à força de colaborações autorais como as de Marc Forster (World War Z, 2013) e Zack Snyder (no remake de Dawn of the Dead, 2004).
Na linha autoral, uma voz pouco articulada com módulos de género, sobretudo o terror, deu à linhagem consagrada por Romero aquele que talvez seja o seu filme mais original em cerca de cinco décadas, em parte por aplicar esquemas modais desse universo temático a hipóteses científicas que dispensam o sobrenatural para falar de evolução: o inglês Danny Boyle.
O orçamento de que dispôs para filmar 28 Days Later (2002) — em Portugal, 28 Dias Depois; no Brasil, Extermínio — foi o máximo que conseguiu após a sua frustrada experiência com Leonardo DiCaprio em The Beach (2000). Apesar de concorrer ao Urso de Ouro com essa produção, que custou 50 milhões de dólares e valeu 144 milhões, o realizador recebeu críticas de múltiplos lados, de instituições ecológicas, do governo tailandês e de parte da crítica.
Essas saraivadas deixaram-no fragilizado, mas Boyle seguiu apoiado no carinho de Alex Garland, autor do livro que inspirou essa narrativa praiana e hoje cineasta. Partiu dele a ideia de filmar mortos-vivos de forma pessoal. É também Garland quem, agora, em 2025, assina o guião de 28 Years Later: The Bone Temple, afinando (e refinando) uma parceria criativa que assegura ao circuito comercial uma receita pop sem concessões, sangrenta e reflexiva, moldada pelo gesto autoral de Nia DaCosta.
A realizadora agarra-se ao seu específico artístico — a reflexão sobre redenção aplicada a um contexto de maldade crua e nua. Separa o mal do Mal, ou seja, o mal perpetrado por humanos do mal mítico e místico, expondo a predisposição da Humanidade para segregar e causar dor como afirmação de poder, tema central da obra de Garland. Põe de lado a vertente zombie e cola-se à figura de Kelson, médica que testemunhou as ruínas da Terra, perdeu a sua amada, mas preservou os seus LPs. Ao ajudar um miúdo acossado por um grupo de satanistas, usa tudo o que aprendeu nas aulas de estequiometria.
Com a ajuda de Fiennes, Nia heroiciza Kelson até ao limite do realismo, aparando as arestas de uma personagem talhada para ser secundária. A sua relação com o zombie de dimensão gigante (Chi Lewis-Parry), no esforço de devolver-lhe a sensação de memória, modula a empatia num filme de montagem nevrálgica e final avassalador. Há ainda uma aparição surpresa que arranca sorrisos, num jogo cinéfilo que borrifa otimismo sobre uma estrutura dramatúrgica assumidamente catastrofista.




















