Lido como um espelho um tanto entortado da situação da Argentina com Javier Milei, Glaxo, um dos 17 concorrentes à Concha de Ouro de 2026, atinge um equilíbrio invejável ao aproximar a gramática dos dramas de geração de marcadores políticos em tom de thriller. Benjamín Naishtat esbanja, uma vez mais, a sua destreza em administrar núcleos dramáticos de diferentes personagens, tal como fez em 2023 em Puan, uma comédia dramática sobre o ensino público que lhe valeu, juntamente com María Alché, o prémio de argumento em Donostia. Ao lado desse cineasta, hoje um dos mais virtuosos da sua pátria, está o diretor de fotografia brasileiro Pedro Sotero, de O Som ao Redor, com quem fez Rojo, uma espécie de irmão mais velho desta nova trama.
Naishtat abre Glaxo pela mão de James Cameron, ao ambientar o início da sua película numa sala de projeção dos anos 1980, onde Terminator é a sensação do momento. Dois amigos de longa data assistem ao filme com o T-800 (Arnold Schwarzenegger) a caçar Sarah Connor (Linda Hamilton). Pouco se compreende da trama, revolucionária à época, mas a conversa cinéfila entre os dois desenha uma relação de companheirismo longeva. Alan Sabbagh vive Bicho e Esteban Bigliardi, numa precisão cirúrgica, encarna Flaco. Geram graça ao falarem da luta do Exterminador num passado do qual não faz parte.
A dor de Flaco parece dominar a cena… e o enredo… até que Naishtat retrocede no tempo até aos anos 1950, num dispositivo narrativo semelhante ao do italiano Sergio Leone (1929-1989) em Once Upon a Time in America (1984). Tal como acontecia no clássico de máfia, vemos um estudo de um grupo de jovens que se enquadra nas regras da pobreza de uma cidade tomada por conflitos — neste caso, ligados a um período de forte instabilidade política. Um dos rapazes, Miguel (Joaquín Bonadeo), vai passar por um ciclo de reeducação afetiva ao ser apresentado a um casal dissonante: a dionisíaca Miranda (Lali Espósito) e o marido, o polícia Ramón Folcada, uma daquelas figuras larger than life, no jargão hollywoodiano, que Gene Hackman e Tommy Lee Jones encarnavam num cinema de outros tempos, aqui vivido por um Marcelo Subiotto em altíssima voltagem.
De caráter indecifrável, Folcada é um agente de corrupção indisfarçável nas suas ligações ao poder. Foi retirado de Buenos Aires e enviado para Chivilcoy, uma cidade onde se encarrega de fazer desaparecer os desafetos do Estado. Ali é uma espécie de senhor feudal que trata todos como seus vassalos, incluindo Miguelito, que se encanta por Miranda e se derrete perante toda a sensualidade que vê na força feminina diante dele. Folcada sabe que ela é um vulcão na sua vida e tenta, das formas mais reprováveis possíveis, controlar a sua erupção. Vai usar o miúdo para isso, o que gera uma ciranda de traições, algumas nada óbvias, que a montagem de Lívia Serpa embaralha com sagacidade, avançando e recuando entre décadas, com base na literatura de Hernán Ronsino, de onde vem o enredo.
Sotero fotografa os anos 1950 sem estilizações. A direção artística também evita investir em lugares-comuns. O que se impõe diante de nós é um tempo de idílio partido confrontado com outro de mágoa. Ambos se desenham a partir da perceção de falências morais e de perdões impossíveis. Entre os dois períodos, Folcada impõe-se como um fantasma que não se exorciza e reencarna de tempos a tempos, numa leitura que permite chegar ao presente de Milei. Ele encarna o Mal nas vestes da Lei, um pouco como Hackman fazia com o xerife Little Bill de Unforgiven (1992). Uma palavra particularmente assustadora, historicamente associada a discursos autoritários, “civilizatória”, é usada para justificar as ações desse agente da Justiça que utiliza o poder nas suas mãos para redefinir destinos através de uma prática de submissão sem qualquer vergonha de manipular.
Produzido pela RT Features, Glaxo foi rodado inteiramente no Brasil, apesar de decorrer na Argentina e não abrir espaço ao português, mesmo com a presença de artistas e técnicos brasileiros em vários eixos criativos. Numa vereda autoral, a sua feitura reafirma o caminho que Naishtat traz de Rojo, investigando delitos ligados a épocas da América Latina em que a democracia parecia uma fantasia.



















