Após ter abanado as certezas políticas dos americanos sobre a extinta URSS com a projeção em Tribeca de Meeting Gorbachev, já exibido no Brasil pelo É Tudo Verdade– Festival Internacional de Documentários, o alemão radicado em Los Angeles Werner Herzog agora eriça os ânimos do Festival do Rio 2019 com uma narrativa documental mediada pela nostalgia: Nomad: In the footsteps of Bruce Chatwin. A produção resgata as memórias do escritor inglês responsável por livros de viagem que se tornaram de culto pela sua riqueza literária e etnografia como In Patagonia (1977). Chatwin (1940-1989) deixou como herança para o seu amigo germânico responsável por filmes como Aguirre, o Aventureiro (1972) a mochila que o acompanhava nas suas andanças pelo planeta, em expedições arqueológicas e paleontólogas. O novo filme do cineasta é uma revisão das recordações que o autor britânico colecionou. A sua exibição na maratona cinematográfica será às 19h40 (horário do Brasil) esta quarta-feira.
Aos 77 anos, lutando para levar às salas o livro Fordlândia, de Greg Grandin (sobre o desejo de Henry Ford em estabelecer na Amazónia a sua própria plantação de seringueiras), Herzog começa a arrebatar uma nova legião de fãs juvenis para si, por conta de sua participação como ator na série da Disney+ The Mandalorian, com foco no universo Star Wars. O aclamado cineasta germânico já participou de 30 produções no posto de ator e, com a sua voz metálica, teve o direito a um papel na franquia “Jack Reach“, com Tom Cruise. No entanto, o vilão conhecido, até agora, apenas como O Cliente, na série idealizada por Jon Favreau, eleva a sua popularidade para plateias alheias ao Novo Cinema Alemão. Num recente depoimento, durante as conversas para promover a produção (que esbanja adrenalina, num ritmo narrativo febril), Herzog disse que se trata “de cinema na sua melhor qualidade, permitindo que os atores olhem para o visual que os cerca e não vejam apenas uma tela verde“.
Numa passagem por Cannes, durante um evento ao lado do diretor Xavier Dolan e da atriz Julianne Moore, Herzog explicou ao C7nema como é adaptar a sua estética ligada ao Real para o mundo do fim dos anos 2010.
O que existe de poético na narrativa documental contemporânea?
A mesma que existe na ficção: a necessidade de perceber os abismos entre ordem e natureza, entre o processo civilizatório e nossa essência animal. Não vejo diferença entre documentário e ficção, na prática da construção de um filme, pois tudo se trata de recortar uma contingência do Real, uma instância poética que vá além do testemunhal. Eu fiz, há uns sete anos, uma série de documentários para a TV sobre condenados à morte. No relato deles, o testemunho que mais interessa não são as fatualidades e, sim, o medo diante do fim ou a absoluta inércia moral.
Mas o que guia o seu olhar na captação de entrevistas ou de materiais de arquivo para um documentário como Nomad: In the footsteps of Bruce Chatwin?
A retidão na arte depende na concisão do artista, ou seja, na busca não por uma precisão matemática, mas por um senso de essencialidade. Quando preparo um documentário qualquer, não saio filmando à toa. A câmara não tem o poder sensível nem racional de escolher por mim. A realização começa na eliminação do excedente, um trabalho que, ao contrário do que os teóricos da montagem sugerem, não deve ser a tarefa estética do montador. É o cineasta, durante as filmagens, quem precisa delimitar o que entra e o que sai, separando o joio do trigo. Documentaristas não são apanhadores de lixo. São artistas em busca de imagens essenciais a uma narrativa racionalmente demarcada.
Nos sets de filmagem a lógica é diferente?
Claro que não. Eu nunca estourei uma diária de set nenhum, pois não filmo aquilo que não vou usar. Existe um mundo lá fora, fora do cinema, onde as pessoas estão a viver em ambientes muito diferente do que qualquer contingência racional possa definir. Eu saio a campo, com a câmara em busca dessas práticas de viver.
http://www.youtube.com/watch?v=eFCOF7I91Ls
Que legado autoral o cinema construiu?
Não penso em legado, porque esse conceito pressupõe uma revisão ligada à finitude, à reforma. Não penso em morrer, nem em parar. E não costumo considerar vaidades de posteridade. .

