Lisboa tem um encontro marcado com o cinema das mulheres do Brasil, feito na fronteira da reflexão documental, nas próximas quartas-feiras, a partir deste 8 de janeiro.
Os Dias com Ele, de Maria Clara Escobar; Marighella (na imagem), de Isa Grispum Ferraz; Retratos de Identificação, de Anita Leandro; e Setenta, de Emília Silveira, compõem a programação inaugural do Cineclube da Casa do Brasil de Lisboa (Rua Luz Soriano, 42, quase c/Calçada do combro, no Bairro Alto). A curadoria é da doutora em cinema e programadora Lídia Ars Mello. As sessões serão comentadas por profissionais de cinema e de direitos humanos que tenham afinidade com os filmes. A atração de abertura é um ensaio poético, em forma de retrato, sobre o dramaturgo e professor de Política da Comunicação Carlos Henrique Escobar, mito da filosofia nas Ciências Sociais do Brasil dos anos 1960 e 1970. Na entrevista a seguir, Lídia traça um desenho de seu projeto de formação de olhar, que, a partir de fevereiro, passa a incluir longas metragens de ficção.
Que “sintomas” do Brasil tenso dos dias atuais perpassam os filmes que escolheu e que desenho de país ou de memórias eles criam?
Os filmes escolhidos para exibição no mês de janeiro são carregados de uma terrível memória político-histórica do Brasil, do poder ditatorial, dos anos de 1964-1985, e criam um diálogo inevitável com o que acontece hoje no país. Intelectuais, professores universitários, investigadores académicos, artistas e militantes sociais deixaram o país em autoexílio depois da eleição de 2018. É preciso reforçar a gravidade do autoexílio de um parlamentar, como Jean Willys. E também de Márcia Tiburi, professora universitária que foi candidata ao governo estadual no Rio de Janeiro. Destaco também as intervenções atuais na ANCINE – Agência Nacional de Cinema, que são graves e integram um conjunto mais amplo de ataques à produção cultural e artística no Brasil. A retirada dos cartazes de filmes brasileiros da sede da ANCINE, no fim de 2019, é o sinal da tentativa de anulação histórica, de desrespeito pela produção e memória do cinema nacional. O que ocorre com o filme Marighela, dirigido por Wagner Moura, finalizado há quase um ano e ainda não lançado, é sintomático da tensão e retorno de práticas de censura às produções culturais, que hoje por vias burocráticas estão tentando emperrar a circulação e o fomento à produção cinematográfica. Os filmes a serem exibidos no Cineclube da Casa do Brasil de Lisboa, trazem às vistas questões marcantes da memória brasileira e permitem ligar e perceber um país hoje sem liberdade para a produção e expressão de pensamento.
De que maneira essa sua proposta de cineclube pode estreitar laços lusófonos entre Brasil e Portugal a partir das cicatrizes da Realidade, via estética documental?
A atividade cineclubista na Casa do Brasil de Lisboa irá promover a formação de público e será, também, um meio de criar diálogos políticos e cinematográficos entre Brasil e Portugal. E é uma forma de “ArtVismo” político meu, enquanto programadora/curadora de cinema. Pretendo convidar realizadores portugueses para comentar os filmes durante o ano de 2020 e também brasileiros que vivem em Lisboa, muitos deles (como eu) emigraram em 2019 para a terra lusa no intuito de escapar da barbárie que se instala no Brasil, de encontrar uma “linha de fuga” para resistir e agir, “de reafirmar a vida“, diria Nietzsche. Os filmes a serem exibidos em janeiro são documentários sobre a ditadura militar brasileira, uma terrível memória histórica que não podemos apagar; temática que nos permite acessar o passado para refletirmos o tempo presente do Brasil. Sei que há ainda muitos portugueses que desconhecem a ditadura militar brasileira, que deixou cicatrizes, marcas que refletem na realidade, no autoritarismo em nosso país hoje. Já os filmes das sessões de fevereiro a dezembro 2020 serão ficcionais e não apenas documentários, centrados sobre migração, com ênfase em filmes lusófonos e latino-americanos que tratam deste assunto. Este tema é a razão de existir da Casa do Brasil de Lisboa. Então, neste sentido acredito que os filmes que serão projetados no Cineclube possam colocar tais questões em debate e produzir reflexão crítica, em especial, para os brasileiros que aqui se abrigam. Às vezes na distância podemos perceber melhor nossa realidade.
Que passos você planeia para o projeto na ficção?
De fevereiro a dezembro de 2020, o Cineclube CBL promoverá exibições mensais de longas-metragens documentais e ficcionais, sempre às quartas-feiras às 19h30. E o tema dos filmes, como disse antes, é migração. Darei preferência para filmes lusófonos e latino-americanos. Ainda estou selecionando. É uma temática que envolve a área de atuação da Casa do Brasil de Lisboa, associação que luta pelos direitos de migrantes em Portugal, não apenas brasileiros. Em fevereiro, o filme a ser exibido é Estive em Lisboa e lembrei de você (2016), de José Barahona, realizador português que vive no Brasil.
Está previsto para dia 26/2. A programação poderá ser vista mês a mês na página da Casa do Brasil de Lisboa no Facebook. Este filme tem duração de 120min. É um drama muito próximo da realidade do Brasil de hoje, em que muitas pessoas migram para Portugal em busca de uma vida melhor, fugindo dos males impostos pelo governo de extrema-direita que desgoverna nosso país. O filme é uma adaptação cinematográfica do romance homónimo do escritor brasileiro Luiz Ruffato. O argumento e a direção são de J. Barahona. A sua sinopse: “O filme aborda a vida de Sérgio, um brasileiro proveniente de Minas Gerais, que de repente se vê sem emprego, sem a esposa e sem o filho; não vendo saída decide emigrar para Portugal. Ele chega a Lisboa em busca de oportunidade de trabalho e com esperança de uma vida melhor. Mas o que vai encontrar é algo muito diferente do idealizado. Longe da família e do país onde nasceu, vai ter de enfrentar a solidão, o desprezo e a estranheza de um povo e cultura diferente da sua“.
Em fevereiro teremos ainda 2 sessões com filmes políticos, dia 5 a ficção Hoje (2011) de Tata Amaral, e dia 19 o documentário Pastor Cláudio (2017) de Beth Formaggini. Sempre às quartas, às 19h30.

