Takashi Miike: «inspiro-me nos clássicos de samurai de Kurosawa»

(Fotos: Divulgação)

Apesar da concorrida presença de filmes com aura de Oscar, como O Caso Richard Jewell, ou de longas-metragens premiados em grandes festivais, como Portrait de la jeune fille en feu, o Festival do Rio 2019 vê, a cada dia, a produção japonesa Hatsukoi (First Love/ Primeiro Amor), de Takashi Miike, disparar no boca a boca de adesão popular, tornando-se o preferido do evento.

Revelado na Quinzena dos Realizadores de Cannes, o novo thriller do “Quentin Tarantino do Japão” acompanha o empenho de um pugilista fragilizado por uma doença terminal para ajudar uma jovem acossada por delírios persecutórios num embate contra uma guerra de gangs. As cenas de ação exuberantes surpreendem mesmo os fãs do prolífico cineasta. Nestes tempos de John Wick, ninguém retrata a brutalidade como Miike, hoje com 59 anos, somando uma marca de cem filme no seu currículo, de 1991 para cá. Há mais uma projeção da obra no Rio de Janeiro, na quarta, às 21h15 (hora do Brasil), no Estação Net Ipanema.

Na entrevista a seguir, concedida ao C7nema em Cannes, ao lado de seu produtor, Jeremy Thomas, o realizador de Blade of the Immortal explica a sua estética.

De onde vem esse ímpeto de produzir tanto, fora razões comerciais?

É questão de disciplina. Como organizo-me de modo a rodar rápido e barato, não gosto de deixar o tempo ocioso. Há muito a ser dito. Eu inspiro-me muito nos clássicos de samurai de Kurosawa, ainda que eles já não sejam mais um objeto de estudo para as novas gerações no Japão. Cresci com os filmes dele, assim como o de outros mestres do meu país, mas instiga-me a possibilidade de partir de uma trama de género para investigar fraturas morais. O meu empenho, ao dirigir cenas de ação em filmes como First Love, não está em roubar ideias de Kurosawa e sim em levar questões do presente, do meu mundo, para um universo que ele lapidou, não só o dos guerreiros samurais, mas de outros heróis.  

Como vê o prestígio do cinema de ação hoje?

Tenho uma estética muito particular, que alguns consideram “excessiva”, mas que entendo como um reflexo de tudo o que vi. Os meus filmes circularam muitas vezes em Cannes, o que me deixa muito contente, por saber que furei um bloqueio inerente a esse veio, que é considerado só como entretenimento descartável. Na ação, eu ponho o movimento, o tempo e espaço à prova.

O que norteia as personagens de First Love?

Uma dicotomia entre bondade e franqueza. Ajudar o próximo é abrir uma porta para ser abusado, ser usado? Isso é parte da Comédia Humana em que vivemos. Até gangsters fingem ser o que não são para sobreviver. É isso que eu quero estudar. Essa arte de fingir.

 
 
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