Construído como narrativa de observação dos códigos da vida na floresta, “A Queda do Céu” é uma espécie de “filme missa”, uma celebração religiosa da ecologia. Cerca de oito anos depois da sua vitória em Cannes, com “Cinema Novo” (troféu L’Oeil d’Or), Eryk Rocha regressa à Croisette – agora pelas vias da Quinzena de Cineastas – com uma longa-metragem assinada a quatro mãos com a sua companheira, a atriz e realizadora Gabriela Carneiro da Cunha. A dupla parte do livro homónimo do xamã Yanomami Davi Kopenawa e de Bruce Albert. Fazem de Davi a personagem principal numa fricção com as dramaturgias do xamanismo. É mais uma oração do que um trabalho de documentação.
A montagem audaz de Renato Vallone consegue desfiar o rosário das preces de Davi até chegar à dimensão filosófica delas. É uma narrativa sobre as ideias de um pensador que parte do lugar da fé para criar uma cosmogonia sobre o balanço entre os seres humanos e a Natureza. Vemos diferentes ritos diante de nós enquanto ouvimos a sua oratória. Há desde rituais de dança para a comunicação com as entidades das matas até à preparação dos alimentos a partir dos recursos naturais extraídos das florestas e das águas.
Na montagem, Gabriela e Eryk fazem um paralelo entre o medo da extinção de que Davi está sempre a falar e uma série de desastres e práticas de destruição (como demolições). É uma analogia para ilustrar o discurso Yanomami sobre o quanto as civilizações da cidade são virtuosas em edificar erosões, de modo a colocar a vida na Terra em risco. O que os realizadores conseguem é formatar um fino ensaio ecológico sobre como proteger o planeta com a ajuda das dicas de uma sabedoria milenar como a dos indígenas.




















