Aos poucos e poucos, o cinema colombiano vai-se desprendendo do chamado cinema-narcotráfico, não só porque os resultados locais no box-office têm sido penosos para as obras locais, mas porque uma nova geração de cineastas tem vido a conquistar voz e a luz das ribalta nos festivais de cinema mundiais pegando em temas enraizados localmente. 

«La Sirga» é um bom exemplo disso mesmo, não caindo no dito cinema que aborda a problemática dos cartéis, mas ainda assim abordando uma ferida aberta da sociedade colombiana: a guerra civil que opõe o governo às FARC. Mas ao contrário de obras musculadas de ação e guerrilha, esta «nova vaga» de cinema colombiano prefere antes mostrar – de forma pausada e muitas vezes contemplativa – os efeitos perversos, duradouros e muitas vezes invisíveis desse conflito, seja nas crianças, nas mulheres, nos indígenas ou nos afrodescendentes. 

«La Playa DC», «Chocó», «La Captura», «Las Colores de la Montana»«Todos tu muertos» e «La Sirga» são belíssimos exemplos muito recentes dessa nova vaga do cinema colombiano que tem conquistado a atenção dos festivais, especialmente por serem usadas formas e linguagens cinematográficas menos óbvias e mais ligadas ao dito cinema arthouse. Neste «La Sirga», que marcou presença na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes este ano, acompanhamos Alicia (Joghis Seudyn Arias), uma jovem de 19 anos em fuga que procura refúgio após a sua aldeia ser destruída e a sua família morta. Curiosamente, os perpetradores desse massacre nunca são nomeados, mas o espectador mais atento e informado liga o espaço a território assediado pelas FARC.  Nessa fuga, o único local que ela encontra é um espaço à beira de um lago denominado por La Sirga e onde vive o seu tio, Oscar (Julio Cesar Robles), um homem simples que de forma relutante aceita que ela permaneça no local. A partir daqui assistimos ao dia a dia desta mulher, especialmente na forma como ela ajuda a reformar La Sirga (de maneira a chamar turistas que nunca vêm), a ter atos de sonambulismo que pensava estarem ultrapassados desde a infância e a transformar-se no objeto de desejo, primeiro de Mirichis (Guacas), um jovem que faz as travessias de barco no lago, e depois do filho de Oscar, Freddy (Heraldo Romero), que regressa a casa com algumas feridas não explicadas e intenções pouco óbvias. William Vega, o realizador desta obra, em estreia absoluta nas longas metragens, conta a sua história de forma pouco aberta, preferindo estabelecer um retrato elíptico da vida de uma pequena comunidade nos limites da civilização.

A forma como se aproveita do espaço para criar uma fita bastante atmosférica, e onde o local assume também a forma de uma personagem, demonstra uma solidez e maturidade acentuada de um «novato» nestas andanças, mas quando se tem ideias claras da linguagem cinematográfica que se quer seguir (inspirada nas obras dos anos 60 e 70), tudo se torna mais fácil. A ajudá-lo em grande parte nessa tarefa temos muitos atores não profissionais (como o tio Oscar), que dão um sentido de realismo maior no meio de uma estrutura que muitas vezes cai no onirismo. A contribuição da fotografia de Sofia Oggioni Hatty e um minimalista design de produção, transforma «La Sirga» num pequeno grande conto, onde Vega mantem-se sempre firme junto a Alicia e no seu processo de cura de um trauma que muitos colombianos lidam ao longo das suas vidas.  Um bom pequeno filme que merece uma olhadela dos festivais portugueses.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
la-sirga-por-jorge-pereira A contribuição da fotografia de Sofia Oggioni Hatty e um minimalista design de produção, transforma «La Sirga» num pequeno grande conto, onde Vega mantem-se sempre firme junto a Alicia e no seu processo de cura de um trauma que muitos colombianos lidam ao longo das suas vidas.