Basta um fragmento de horror — concentrado na utilização de uma escova feita de pregos numa prática de automutilação — para Sleep No More (Monster Pabrik Rambut) declarar ao que vem à Berlinale e, futuramente, ao circuito comercial internacional. Edwin, o seu realizador, designer de formação, regressa à Alemanha — onde disputou o Urso de Ouro, há 14 anos, com Postcards From The Zoo (2012) — mais amadurecido na utilização das cartilhas do género como ferramenta de análise social. O Leão de Ouro conquistado com Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash (2021), no primeiro ano da direção artística de Giona A. Nazzaro no Festival de Locarno, ampliou a sua visibilidade e consolidou o seu lugar no circuito internacional. É um artista que entrega ao público o melhor que os códigos do género prometem, sem abdicar das inquietações existencialistas e do colorido cultural da Indonésia.

Tal como Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash seduzia fãs de artes marciais com sequências de combate exuberantes, enquanto desmontava o sexismo, Sleep No More oferece arrepios enquanto discute a opressão laboral. É um estudo sobre rendimento fabril e sobre os efeitos nefastos da mais-valia — no sentido marxista — na vida de quem sua por um salário mensal. O suor mistura-se com sangue e com uma entidade que evoca os espíritos inquietantes de The Ring (2003) e The Grudge (2004). Nos créditos finais, uma sequência de animação introduz um epílogo inesperadamente bem-humorado.

Edwin corta carnes e quebra ossos sob um pavimento melodramático estruturado na relação entre duas irmãs, Putri (Rachel Amanda) e Ida (Lutesha), exploradas numa fábrica de manequins onde procuram sustento. A chefia impõe turnos excessivos, privilegiando a produtividade em detrimento do descanso. Putri acredita que a mãe, também operária, se suicidou por causa dessa exploração. Ida sustenta que a progenitora foi possuída por uma entidade que surge quando o corpo enfraquece pela exaustão.

Para provar a sua teoria, Ida trabalha dia e noite para ser possuída e confrontar a entidade. O irmão mais novo, Bona (Iqbaal Ramadhan), nasce com a capacidade de cicatrizar rapidamente. Enquanto as irmãs investigam o passado, um espectro procura apropriar-se desse dom.

Retratada como uma massa de sombras, essa presença remete para a fantasmagoria do Primeiro Cinema mudo, acrescentando uma camada suplementar à dimensão extracampos do filme, onde a memória assume contornos sobrenaturais. A recordação da mãe aprisiona as personagens num ciclo de maldição. O mal alimenta-se do apego ao passado. A direção de fotografia de Akiko Ashizawa explora um cromatismo quente e intenso, enquanto a montagem de Daniel Hui aposta num ritmo acelerado que imprime ao filme uma pulsação eletrizante.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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