Pelas contas do IMDB, Nicolas Cage soma hoje 118 filmes num currículo iniciado na década de 1980 que tem em “Leaving Las Vegas” o seu apogeu, coroado com o Oscar. Ele chegou a ter um novo lugar na disputa da Academia de Hollywood, em 2003, com “Adaptação”. Mas a partir de 2011, por uma série de problemas pessoais, o sobrinho de Francis Ford Coppola pôs na reformas o senso crítico e passou a amontar palermices atrás de outras, a fim de amealhar dinheiro. O prestígio do passado ficou arranhado, embora ele ainda seja respeitado pela colossal força dramática que tem. Uma vez ou outra, do lamaçal de filmes B (alguns são Z) onde se enfiou, brota uma pérola. O enervante “The Surfer” é uma delas. A marca do irlandês Lorcan Finnegan ajuda. É dele a precisa direção.

Em paragens australianas, uma história de obsessão se desenha na violência do bullying adulto. Cage vive uma personagem sem nome. É um homem endinheirado, mas nem tanto, pai de um adolescente. O seu casamento chegou ao fim, a mulher está grávida de outro e ele não consegue o dinheiro necessário para comprar uma casa na praia onde cresceu. O pai é uma espécie de fantasma, que o assombra, seja em boas lembranças, seja em lampejos um tanto espectrais. É um sujeito oculto que altera o rumo da sua prosa com o mundo.

A sua meta, enquanto não alcança o milhão necessário para dar a entrada na propriedade que cobiça, é surfar com o filho. Tem uma prancha boa para isso. Mas um grupo de valentões da região impedem que ele ande pelas ondas. E não apenas o afastam com ameaças como sabotam a sua vida de múltiplas formas.

Numa espiral de emoções mais forte do que a do seu “Vivarium” (2019), Finnegan leva-nos a partilhar do calvário de Cage por 1h30 minutos até uma breve viragem acontecer. Ele perde o telefone, tem o carro roubado, fica sem água e comida, sofre humilhações, precisa trocar o relógio por um café que não consegue beber e é atacado por um rato. É um processo de enlouquecimento, tratado, na lógica da longa-metragem, como uma terapia de sofrimento. A estonteante fotografia, em enquadramentos vertiginosos, traduz à excelência essa loucura a que o protagonista é submetido, numa estética à moda do cinema americano dos anos 1970.

O guião traz uma reflexão sobre a pertença, desenraizamento e estranheza, numa lógica de alteridade na qual o outro (no caso, Cage) é sempre o invasor.


Link curto do artigo: https://c7nema.net/7lh9
Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
the-surfer-nas-ondas-da-aflicaoO guião traz uma reflexão sobre a pertença, desenraizamento e estranheza, numa lógica de alteridade na qual o outro (no caso, Cage) é sempre o invasor.