Primeira longa-metragem de ficção do realizador libanês Cyril Aris, até aqui conhecido por documentários como El-Marjuhah (2018) e Dancing on the Edge of a Volcano (2023), A Sad and Beautiful World chega a Veneza e à Giornate degli Autori como mais uma reflexão sobre a impossibilidade de escapar à história e sobre como o passado coletivo se inscreve no corpo e nas relações.

Apesar das diferenças de estilo— um mais intimista e documental, o outro mais mítico e surreal — é inevitável evocar Memory Box ao falar de A Sad and Beautiful World, sobretudo pela forma como a história do Líbano — a guerra, os problemas económicos, as desgraças repetidas — nunca dá trégua, reaparecendo sempre: seja em caixas de recordações (Memory Box), seja em encontros predestinados (A Sad and Beautiful World).

Yasmina (Mounia Akl, realizadora de Costa Brava) e Nino (Hasan Akil, ator de Memory Box) estiveram juntos ao nascer, no mesmo instante em que uma explosão causou caos no hospital. Reencontram-se na infância, após um castigo numa sala de aula, tornando-se inseparáveis, com um vínculo que parece inquebrável. O destino pensou diferente. Já na idade adulta, o cosmos faz com que se voltem a cruzar quando Nino, dono de um restaurante, abalroa com a sua viatura uma loja da mãe de Yasmina. Inicialmente, quando se cruzam no hospital, eles não se reconhecem. Mas basta um olhar no restaurante e a descoberta dos três sinais no pescoço de Yasmina para que Nino seja arremessado ao passado.

Ao contrário dele, que encarna o Líbano agarrado à nostalgia, Yasmina representa a necessidade — adiada — de romper com o passado e as raízes. Na fase adulta, planeia emigrar para a Alemanha, após conseguir uma vaga numa empresa de consultoria onde o governo libanês é cliente. “Maldita seja a hora em que olhei para ti”, diz ela, num tom de brincadeira amorosa, ao aparecer à porta de um Nino entristecido com a sua partida. Yasmina não vai. Fica. E os dois celebram este amor com todas as marcas de destino, concretizado na conceção de uma filha.

Com saltos temporais e elipses que se acumulam numa montagem não linear, o espectador acompanha várias fases da relação em paralelo aos desafios do país e às tragédias que se sucedem, impactando inevitavelmente o casal e o coletivo. Da guerra com Israel (altura do nascimento), à guerra civil na Síria (reencontro na idade adulta), até ao pós-explosão de Beirute, marcado pela descoberta de uma corrupção profunda e pela falência bancária — enquanto Israel volta a ameaçar —, o filme atravessa estes eventos ao ritmo da união e ruptura do casal: ela, pronta para partir; ele, amarrado ao seu restaurante e território, como se tivesse raízes tão fortes como as da árvore de cedro presente na bandeira do Líbano.

O resultado é uma comédia romântica evocativa, onde o amor surge como um traço cósmico — um destino comum — colidindo com a realidade dramática do país, que o cineasta também apresenta como uma espécie de destino trágico. Ou como Jean Anouilh, dramaturgo francês, na peça Ardèle (1949), dizia: “Há o amor, é claro. E há a vida, sua inimiga”.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
a-sad-and-beautiful-world-entre-raizes-e-partidas-o-libano-como-metafora-romanticaO resultado é uma comédia romântica evocativa, onde o amor surge como um traço cósmico — um destino comum — colidindo com a realidade dramática do país, que o cineasta também apresenta como uma espécie de destino trágico