Possuidor de uma inequívoca beleza estética, dom da palavra e musicalidade na sua entoação, no jogo cinematográfico tão português de exercício da memória de visitar os seus e, nisso, o Portugal do antigamente, Marta Mateus levou a Locarno um objeto que serve tanto como homenagem aos que retrata, como de peça de ativismo social e político quando um novo perigo se aproxima: a extrema-direita popularucha.

Aprofundando as histórias de uma comunidade na paisagem alentejana, na zona de Estremoz, que conhecemos pela primeira vez no seu filme anterior, a curta metragem “Farpões Baldios”, Marta aventura-se por uma das zonas historicamente mais pobres do país do século XX, contando as histórias das suas gentes, num ato de transformar experiências pessoais em memórias coletivas de uma nação que mandou soldados para as trincheiras da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e Guerra Colonial (1961-1974), além de ter estado sobre o domínio de um regime fascista (1933 – 1974) que acentuou as discrepâncias socias entre os que tinham terra e os que não, os que tinham educação, e os que não, e os que tinham pão para se alimentar, e os que não.

Com um filme que nasce mesmo de uma revolta de um animal, um touro, também ele encarcerado e à mercê dos seus “patrões”, Marta Mateus mete os seus trabalhadores da vindima a subirem às árvores numa tentativa de escapar à ira da “besta”. É já no cimo dos mais robustos troncos, e aparentemente protegidos, que Marta começa a compor uma coleção impressionante de “fotografias” repletas de cinema, enquanto as palavras, num cante, ecoam da voz das pessoas, que de forma curta, mas concisa e poética, falam dos dramas do passado. E até o avô de Marta, João Encarnação, um soldado da Primeira Guerra Mundial, é chamado à história, colocando assim a realizadora os vivos a “falar com os mortos”,  numa revelação de décadas e décadas de sofrimento e de disparidades entre classes sociais, nomeadamente entre os que trabalham para sobreviver e os que comandam para enriquecer.

É um filme (e uma experiência) de extrema beleza, sempre poético na imagem e palavras, que nunca perde relevância, pessoal ou coletiva, no seu percurso pelas telas durante 72 minutos. E com ele, Marta Mateus mostra-se no leque dos cineastas nacionais com algo para dizer e ainda mais para mostrar em cada frame a que dá vida de um jeito muito particular e sensível.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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