Laureado este ano com Óscares atribuídos a Sinners e Weapons, e bem defendido nas bilheteiras por Lee Cronin’s The Mummy, o horror afirma-se como um celeiro politicamente ousado para as lutas morais e éticas da contemporaneidade, sobretudo após a sua ligação às lutas antirracistas e ao combate à homo e à transfobia. O público negro que viu em Jordan Peele um estandarte da peleja decolonial, a partir de Get Out (2017), encara a imersão desse realizador no sobrenatural como uma forma de exorcizar demónios da exclusão. Preconceitos de outra ordem — ligados à intolerância contra gays, lésbicas e comunidades trans — passaram a ser excomungados em filmes como Un Couteau Dans Le Coeur (2018), de Yann Gonzalez. No meio dessa movimentação, que usa um género popularizado pelos monstros da Universal Pictures nos anos 1930 como aríete contra preconceitos, Teenage Sex and Death at Camp Miasma pareceu a escolha ideal para a abertura da secção Un Certain Regard de Festival de Cannes em 2026. Está quase tudo lá — militância, bons argumentos, arquétipos do filão, uma assinatura autoral em ascensão — menos o medo e menos a organização equilibrada das propostas estéticas. Jane Schoenbrun tem muito a dizer… tem muito a se ouvir… mas boicota o seu próprio esforço ao deixar as teses abafarem os objetos de estudo.

Há que avisar: se o seu tipo de terror é o do jump scare, como o monumental The Conjuring II (2016) — obra de James Wan ainda por valorizar devidamente —, o que Jane faz poderá frustrar. Se o interesse por experiências horroríficas for mais aberto, sobretudo ao que se produz fora de Hollywood (das assombrações japonesas e coreanas aos tratados sociológicos da América Latina), ainda assim a frustração surgirá. Ela explica-se pelo facto de uma proposta tão audaciosa tropeçar na “epistemologia” da própria realização, aproximando-se mais de uma dissertação do que de um exercício de terror. A forma como Gillian Anderson — principal chamariz do elenco — atua já compromete o conjunto, não por falta de talento, mas pela forma como a sua persona é utilizada, inviabilizando a construção de uma personagem credível.

Nada anula a relevância de Teenage Sex and Death at Camp Miasma como gesto político, sobretudo na afirmação queer. A sua urgência e pertinência são incontestáveis. Do mesmo modo, reconhece-se a destreza de Jane na criação de atmosferas envolventes e de planos requintados — algo já visível em I Saw the TV Glow (2024), que também se perdia nas suas teorizações, sem entregar o essencial do terror: a capacidade de assustar — ou surpreender — e gerar catarse.

Na expressão mais recente de Jane, o recurso à metalinguagem esvazia a tensão na camada narrativa supostamente realista, onde a morte ronda as personagens. A persona pop de Gillian Anderson — a agente Scully de The X-Files — não se desprende da intérprete, anulando a possibilidade de criar uma nova figura, agora como scream queen de uma franquia decadente.

Segue-se uma rota de slasher quando a protagonista, uma cineasta queer adepta do poliamor interpretada por Hannah Einbinder, decide revitalizar a franquia Camp Miasma. Durante esse processo, torna-se fascinada pela diva reclusa que deu vida à última vítima do filme original, papel de Anderson. O encontro entre ambas desencadeia uma espiral psicossexual em que realidade, desejo e ficção sangrenta se confundem, enquanto a ameaça do assassino Little Death parece regressar das profundezas de um lago associado ao passado da saga.

Reside aí uma crítica — pertinente e bem colocada — às convenções historicamente transfóbicas e homofóbicas do género. Psycho (1960) e The Silence of the Lambs (1991) são prova disso. A fragilidade de Teenage Sex and Death at Camp Miasma acentua-se quando as explosões gráficas de sangue e violência soam alegóricas — e, a certo ponto, inúteis — perante a celebração febril do desejo, sublinhada pela direção de fotografia de Eric K. Yue.

Fica-se uma nostalgia amarga ao fim da sessão de estarmos diante de um Dressed To Kill (1980) que não cumpriu a sua vocação. Brian De Palma é uma referência ali, de alguma forma. Ainda que genealogicamente. Mas essa alusão só nos faz lamentar mais pelo grande filme que não se concretizou.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/6ync
Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
teenage-sex-and-death-at-camp-miasma-poe-a-tese-na-frente-do-potencial-esteticoFica-se uma nostalgia amarga ao fim da sessão de estamos diante de um "Dressed To Kill" (1980) que não cumpriu a sua vocação