Houve um momento dos anos 1980 em que uma bebedeira entre James Cameron e Arnold Alois Schwarzenegger redefiniu os rumos do cinema, num tempo em que os filmes — ao contrário de Avatar: Fire and Ashes (Avatar: Fogo e Cinzas) — eram vivos. O uísque correu livremente num encontro entre o realizador canadiano e a produtora Gale Anne Hurd com o então jovem fisiculturista austríaco, na altura ainda um aspirante a estrela. Ele vinha de Conan the Barbarian (1982); a dupla à sua frente queria que fosse o protagonista de um projecto chamado The Terminator (1984).

Foi marcado um almoço para a negociação. Era suposto ser uma refeição breve, com salada e proteína, mas transformou-se num almoço prolongado, de várias horas, regado a bebidas e especulações. Cameron e Gale não tinham dinheiro suficiente para pagar a conta, mas Arnold, satisfeito por aceitar o convite, dignou-se a fazê-lo. Ali nasceu um culto — e uma franquia — afinado com o ethos de ousadia que Cameron viria a perder.

Nomeado para os Globos de Ouro nas categorias de Melhor Canção, por Dream As One, interpretada por Miley Cyrus, e de Melhor Blockbuster, Avatar: Fire and Ashes estreia na recta final de 2025 na maioria dos mercados exibidores, com a ambição declarada de repetir o impacto industrial dos seus antecessores — apesar do tédio que provoca. A saga ecológica criada por Cameron permanece como um fenómeno comercial raro na história do cinema contemporâneo, ao unir gigantismo tecnológico, discurso ambiental e apetite global por espectáculo imersivo.

Lançado em 2009, Avatar (2009) custou cerca de 237 milhões de dólares e valeu 2,9 mil milhões, tornando-se a maior bilheteira mundial de sempre. O filme somou 89 prémios, incluindo os Óscares de Melhor Fotografia, Direcção Artística e Efeitos Visuais. A sequela, Avatar: The Way of Water (2022), estreada em 2022, alcançou 2,3 mil milhões de dólares, figurando como a terceira maior receita da história do cinema, atrás apenas do original e de Avengers: Endgame (2019). Era visualmente inferior à matriz e profundamente tediosa, mas… valeu muito dinheiro.

Avatar: Fire and Ashes tornou-se obrigatório perante o faturamento da Parte Dois. A narrativa decorre um ano após os acontecimentos do segundo filme e aprofunda o universo de Pandora com a introdução de uma nova tribo Na’vi, conhecida como o Povo das Cinzas. A história acompanha Jake Sully, antigo humano convertido em Na’vi, Neytiri e os seus filhos, agora marcados pelo luto da morte de Neteyam, enquanto enfrentam o regresso do coronel Quaritch, novamente interpretado por Stephen Lang, um actor em estado de graça que, ainda assim, aqui desaponta.

Depois de se estabelecerem junto do clã Metkayina, os Sully são confrontados com Varang, líder feroz do Povo das Cinzas, muito bem interpretada por Oona Chaplin. A personagem destaca-se como a figura mais inquietante deste novo capítulo, aliando-se às forças humanas e aprofundando o conflito em Pandora, agora orientado para a exploração armada e a expansão territorial.

Nos aspectos visuais, nos efeitos e na direcção artística, o terceiro filme eleva o virtuosismo técnico da franquia, com um uso do 3D e da escala digital que continua a redefinir padrões de espectáculo. Nos primeiros minutos, a imersão sensorial impressiona e reafirma Cameron como um dos grandes arquitectos da tecnologia aplicada à imagem cinematográfica. Não vai além disso.

Narrativamente, porém, o filme revela fragilidades. As personagens raramente ultrapassam o esboço funcional, e as sequências de acção repetem, de forma exaustiva, estruturas já vistas em Avatar, diluídas ao longo de mais de três horas de duração que cansam. A apropriação de referências culturais indígenas na construção dos Na’vi continua a causar desconforto, agora sem a força alegórica que sustentava o impacto do primeiro Avatar. Há um decalque de símbolos e rituais que empapam a ficção científica de uma etnografia didáctica.

É provável que Avatar: Fire and Ashes alcance resultados expressivos de bilheteira, beneficiando do vazio deixado pelo fiasco recente do filão dos super-heróis. A seu favor, Cameron conta com a curiosidade global em torno do dinamismo tecnológico da sua estética. No entanto, o deslumbre técnico não consegue ocultar uma sensação de vazio dramático, limitando o filme a um espectro de videojogo — e dos mais ultrapassados. Não existe a centelha da experiência cinematográfica transformadora que havia em The Terminator (1984).

Responsável por títulos fundamentais como Aliens (1986), The Abyss (1989) e Titanic (1997), Cameron construiu uma carreira marcada pela fusão entre espectáculo e inovação. Em Avatar: Fire and Ashes, essa ambição mantém-se intacta no plano tecnológico, mas perde densidade artística, deixando a impressão de que a grande visão se tornou refém da própria escala. Saudades do artista que ele foi.

A franquia deverá continuar com Avatar: The Tulkun Rider e Avatar: The Quest for Eywa, previstos para 2029 e 2031. Resta saber se, até lá, Pandora voltará a oferecer não apenas imagens deslumbrantes, mas também cinema com pulsação dramática. Não parece. Oona merecia melhor sorte.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
avatar-fogo-e-cinzas-nao-pega-fogo-e-entendiaCameron construiu uma carreira marcada pela fusão entre espectáculo e inovação. Em Avatar: Fire and Ashes, essa ambição mantém-se intacta no plano tecnológico, mas perde densidade artística, deixando a impressão de que a grande visão se tornou refém da própria escala.