Um ano depois de Akiplėša (Toxic, 2024) conquistar o Festival de Locarno com a história de adolescentes que entram no mundo da moda à procura de sair da desolação (industrial) do seu pequeno povoado, onde ainda eram confrontadas por diversas desestruturações familiares e sociais, o certame suíço recebe um outro projeto, agora da Bielorrússia. E embora seja consideravelmente diferente na sua narrativa e abordagem, White Snail carrega nele uma atmosfera similar de descontentamento e estranheza existencial, não apenas dos protagonistas perante o ambiente e sociedade que os rodeia, mas com eles mesmos.
Neste filme da dupla austríaca Elsa Kremser e Levin Peter, seguimos Masha (Marya Imbro), uma jovem albina com sonhos de carreira como modelo na China, e Misha (Mikhail Senkov), um solitário que trabalha no turno da noite numa morgue. É em Masha, cujo pai emigra para a Polónia e quer que ela lhe faça companhia, que nasce um estranho fascínio pelo necrotério. Inventando que o pai desapareceu, que já procurou em várias morgues e hospitais, mas não o encontrou, a jovem adolescente convence Misha a verificar se os corpos que lá estão não são os do pai. A partir daí, o filme avança pela estranheza do contacto da dupla, que se tornam amigos, dando-se a conhecer aos poucos uns aos outros. É via isso que descobrimos o fascínio do rapaz pela pintura, que expõe nas redes sociais com algum sucesso. Não são pinturas clássicas, diríamos, e envolvem abordagens estéticas complexas ao tema da morte e do suicídio, identificando beleza no que a maioria vê horror. Esses temas são levados para as suas conversas, num ato de desabafo de duas pessoas que se sentem fora do mundo que os rodeia, e em particular na Bielorrússia, com algumas questões políticas e sociais a serem tocadas no pano de fundo, através de elementos sonoros que se infiltram discretamente na paisagem.
Há, neste olhar, algo que ecoa quem vive dentro do mundo, mas nunca nele. Tal como os cães de Moscovo em Space Dogs, obra anterior dos mesmos realizadores, Masha e Misha vivem num espaço, mas nunca pertencem, efetivamente e existencialmente, nele.
Podemos dizer que White Snail começou a sua concepção há dez anos, quando a realizadora Elsa Kremser conheceu o artista Mikhail Senkov durante o Festival de Cinema de Minsk. Ele convidou-a para visitar a morgue onde trabalhava — uma experiência marcante que se seguiu de outra: minutos depois, no seu apartamento repleto de pinturas, o artista revelou uma obra que retratava uma jovem que tentara o suicídio e sobrevivera. Aquela imagem ficou gravada.
Anos mais tarde, os realizadores descobriram Marya Imbro nas redes sociais — uma jovem bielorrussa que navegava entre tensões familiares e o sonho de ser modelo. Um novo universo se abriu para a dupla. Foi no encontro desses dois, entre o real e o fictício, que começaram a construir o que veio a ser White Snail, um drama existencial que entra pelo terreno do realismo com o seu quê de social, já que temos duas pessoas nas margens de uma sociedade que restringe a singularidade.

Filmado com uma câmara fluida, observadora e cúmplice, sob uma direção de fotografia de Mikhail Khursevich com atenção aos jogos de cores e luzes, sem nunca trazer frieza, mas mantendo o deslocamento na atmosfera, o espectador sente-se sempre a caminhar com a dupla perante as suas inseguranças, fragilidades e dúvidas, num registo de intimidade partilhada, ora pelas palavras, ora pelos longos silêncios e expressões corporais, ora por ações de natureza quase mística, como aquele em que entram para o interior de uma árvore.
A verdade é que cada cena parece ser tratada com um grande rigor e precisão da mise en scène, numa construção de puro cinema que surpreende deveras quando descobrimos que todos os diálogos do filme foram improvisados pela dupla de atores, que só se conheceu no primeiro dia das filmagens. Por isso mesmo, e no meio de surpresas e crises que se vão revelando a conta gotas, num ato de criação de intriga e desconstrução lenta das personagens, sem contemplação, White Snail acaba por ser um filme surpreendente. E tal como o caracol branco que lhe dá título, é um objeto raro de beleza discreta, dos que se agarram à pele.



















