Sintonizado com a celebração póstuma das sete décadas de estreia do espanhol Carlos Saura (1932–2023) na realização, o 27.º BAFICI abriu espaço na sua programação para um ensaio documental sobre esse artesão autoral, realizado pela sua filha, Anna Saura. Mais do que uma biopic, Ese Niño de la Fotografía. Carlos Saura (2024) é um estudo sobre resquícios e reminiscências, que parte de uma lógica filosófica defendida pelo semiólogo Roland Barthes (1915–1980) acerca do conceito de “foi aí” inerente a toda e qualquer fotografia. No cogito barthesiano, qualquer retrato 3×4 — assim como qualquer painel fotográfico — é o receptáculo de um passado que já não regressa, pela ausência de movimento (ao contrário do cinema). Mas, na sua quietude, abre uma caixa de sentidos e de informações. É isso que Anna procura ao confrontar-se com acervos familiares inéditos do pai.

La Llamada (1955), uma curta-metragem, marcou o início da sua carreira como realizador — e rapidamente se afirmou como um dos cineastas de maior prestígio do cinema europeu, coroado com o Urso de Ouro da Berlinale em 1981, por Deprisa, Deprisa (1981). Recebeu ainda o Prémio Especial do Júri do Festival de San Sebastián por Mamá Cumple Cien Años (1979), além de dezenas de outras distinções. A efeméride reforça também a visibilidade do seu livro de memórias póstumo, De Imágenes También Se Vive, publicado pela Taurus, onde revisita a Europa que, a partir do final dos anos 1950, reclamava um cinema moderno.

Uma das suas primeiras longas-metragens, La Caza (1966), premiada em Berlim, foi recentemente refilmada em Espanha por Pedro Aguilera. A nova versão, Día de Caza (2025), tem circulado por festivais. Nela, três amigos reúnem-se para uma caçada a coelhos, mas o reencontro assume contornos sombrios, com a violência a simbolizar a ditadura de Francisco Franco (1892–1975).

Um recuerdo de um artista (do audiovisual) quando jovem

Fruto da relação do cineasta com a atriz Eulalia Ramón, Anna Saura não deixa que a saudade comprometa a sua objetividade em Ese Niño de la Fotografía. Carlos Saura, cuja premissa é cartografar um artista central para a construção de uma ideia moderna de Espanha. Nascido em Aragão, Carlos Saura morreu a 10 de fevereiro de 2023, aos 91 anos, deixando projetos inacabados — entre eles filmes sobre Johann Sebastian Bach e Pablo Picasso. Autor de uma obra que marcou o cinema mundial, com destaque para Cría Cuervos (1976), vencedor do Grande Prémio do Júri em Cannes, nunca deixou de trabalhar. Em 2021, abriu o Festival de San Sebastián com a curta Rosa Rosae. La Guerra Civil, lançada posteriormente na MUBI. No mesmo ano, apresentou no Festival do Cairo El Rey de Todo el Mundo (2021), um musical com elementos documentais sobre a ligação cultural entre México e Espanha, sem ignorar as violências históricas do colonialismo, protagonizado por Ana de la Reguera e Manuel Garcia-Rulfo.

Estes momentos finais da sua vida profissional, aliados à convivência com familiares, orientam a estética de “álbum de família” construída por Anna. A sua narrativa impõe-se como um inventário — de feitos, afetos e memórias. Encanta pela doçura, ainda que não surpreenda pela invenção formal. Vale sobretudo pela dimensão informativa e pelo tom afetivo.

O canto do cisne de Saura foi também um documentário: Las Paredes Hablan (2022). Exibido na Berlinale e projetado no Festival do Rio, este filme de 75 minutos debruça-se sobre o mundo da arte, explorando a relação entre criação pictórica (pintura, grafite, desenho) e o espaço do muro — ou da pedra, no caso das cavernas — como suporte. Viaja das primeiras expressões gráficas da Pré-História até às vanguardas contemporâneas, incluindo manifestações urbanas. O próprio Saura surge como narrador e investigador. O filme foi rodado em 14 locais, entre eles as grutas de Puente Viesgo e Altamira, na Cantábria, e o sítio arqueológico de Atapuerca, em Burgos, passando ainda pelas ruas de Barcelona e pelos bairros grafitados de Madrid.

A cinefilia mundial não esquece Carlos Saura — e o BAFICI confirma-o.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
ese-nino-de-la-fotografia-carlos-saura-e-um-inventario-de-reminiscenciasFruto da relação do cineasta com a atriz Eulalia Ramón, Anna Saura não deixa que a saudade comprometa a sua objetividade em Ese Niño de la Fotografía.