Lá pelas tantas da leitura de “O Crepúsculo dos Ídolos”, Friedrich Nietzsche (1844-1900) fala da metamorfose do carvão em diamante não como “evolução”, mas como “proteção”, o que cairia bem ao imperativo de embrutecimento por trás do devastador Tiguere, produção da República Dominicana que faz a sua estreia na Mostra de São Paulo neste sábado, no Instituto Moreira Salles (IMS). Entretanto, parece mais tentador, diante da mirada sociológica dessa produção, evocar um poeta que cantou a selvageria nas desinências existências do verbo “ser homem”, William Blake (1757-1827): “Quando o teu coração começou a bater, que mão, que espantosos pés, puderam arrancar-te da profunda caverna, para trazer-te aqui? Que martelo te forjou? Que cadeia? Que bigorna te bateu? Que poderosa mordaça foi capaz de conter os teus pavorosos terrores?”. Os versos saíram dos estrofes de “The Tyger” (1794) e refletem (bem) a natureza animal analisada sob uma lupa crítica pela longa-metragem de José María Cabral, prolífico argumentista de Santo Domingo conhecido como realizador por Despertar (2014), Detective Willy (2015) e Carpinteros (2017).

O seu novo exercício autoral, centrado no despertar da primavera afetiva de um grupo de jovens confinados num tipo de “centro de formação de machos”, junta-se a um grupo de expressões audiovisuais latinas contra a Cura Gay e outras práticas de coerção do desejo, como é o caso do guatemalteco Tremblores(2019) e do brasileiro Pedágio(2023). A homofobia aqui é apenas uma das muitas cabeças de uma besta chamada sexismo, que se fortaleceu no coração da América de colonização ibérica com o avanço da ultradireita. A maior riqueza da abordagem de Cabral é não se manter apenas nas vítimas, nos oprimidos, mas também explorar de maneira dialética o opressor, sem reduzi-lo a um arquétipo maniqueísta. Nesse ponto, o desempenho arrebatador do ator Manny Perez – no papel do “instrutor” Alberto – é fundamental para salvar a caudalosa narrativa do lugar comum do predador, do cão bravio. A sua violência não é justificada, mas a sua figura não cai na vala científica de demonização.

Ligado à terra, apaixonado por cavalos e devotado ao ofício da paternidade, Alberto parece se despir de toda a empatia que tem quando precisa arbitrar o treinamento de um grupo de adolescentes aquém do coeficiente de “macho” adequado para conviver sob os códigos dominicanos de conduta. Alguns são doces demais, alguns são dóceis em excesso e outros parecem em dúvida diante da própria sexualidade. Há quem esteja ali apenas por sofrer bullying, seja pelo excesso de peso ou por ser albino. O papel de Alberto é transformar esses miúdos em “tigueres”, bichos ferozes que encarnem o apogeu da virilidade naquela região. Os métodos lembram uma mistura de escotismo com o Fight Club, de David Fincher. Ele ensina expressões de fúria quando considera necessário criar um couraçado nos alunos.

A fotografia de Hernan Herrera esmiúça com detalhe aquele mundo silvestre onde os treinos se passam como se fosse um ambiente hostil. A câmara opera a partir de ângulos claustrofóbicos que fazem matas e rios parecerem trincheiras. Um futuro “tigure” em especial, Pablo (Carlos Fernandez), vai questionar as lições do mestre e detonar um processo (subtil) de reação, de modo a expor a fragilidade escondida do seu docente. Esse embate evoca La Prière(2018), de Cédic Kahn, mas sem lugar para a fé. O que está em cena são pulsões do que existe de mais demasiadamente humano na distorcida noção de hombridade que o desamparo estatal gerou em certas nações.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
tiguere-um-fight-club-latino-sobre-a-lei-do-machaoCentrado no despertar da primavera afetiva de um grupo de jovens confinados num tipo de “centro de formação de machos”, junta-se a um grupo de expressões audiovisuais latinas contra a Cura Gay e outras práticas de coerção do desejo, como é o caso do guatemalteco “Tremblores” (2019) e do brasileiro “Pedágio” (2023)