Depois de The Alien, No End e The Witness, filmes sempre atravessados por questões sociais, políticas e morais do Irão contemporâneo, Nader Saeivar chega a Karlovy Vary e à competição do Globo de Cristal com Hijamat, o qual define como o seu projeto mais pessoal.
Produzido e montado por Jafar Panahi, colaborador próximo de Saeivar há cerca de uma década, e passado em Berlim, dentro da comunidade muçulmana da diáspora, Hijamat tem no centro dois irmãos, um deles obrigado a esconder a sua homossexualidade, Kerem (Jael Cem Ilhan), o outro, Murat (Kida Khodr Ramadan), marcado por uma vida inteira vivida sob uma identidade que não escolheu. À volta deles surge o pai, incapaz de confrontar o imã em quem acredita cegamente, e Leyla (Nicolette Krebitz), uma mulher que encontra no YouTube uma forma de expressão que a família e a comunidade lhe negam.
Estivemos à conversa em Karlovy Vary com Nader Saeivar. Aqui ficam as suas palavras sobre viver uma vida dupla, o medo, a religião, o dinheiro e a dificuldade de respirar dentro das comunidades sente-se a cada minuto de filme.

Vi o seu filme anterior, The Witness, onde abordava questões ligadas à condição das mulheres no Irão. Agora toca na questão da homossexualidade. O que o atrai para estes temas dentro da comunidade muçulmana?
Todos os filmes que fiz anteriormente no Irão eram sobre questões sociais. Nunca tive a oportunidade, nem o tempo, de fazer algo que tocasse em questões realmente pessoais, pessoais para mim.
Há tantos problemas no Irão que nem eu nem outros cineastas tivemos oportunidade de fazer filmes sobre eles todos. Depois de emigrar para Berlim, tive finalmente a possibilidade de fazer um filme sobre algo que me era íntimo. Durante muito tempo estive envolvido com questões sociais e políticas, e senti que precisava de me afastar um pouco delas para conseguir concentrar-me nisto.
Precisava de virar a câmara para mim, de olhar um pouco para dentro.
O filme fala de homossexualidade, mas a palavra nunca é dita. Nunca se diz “gay” ou “homossexual”. Por quê essa escolha?
Porque queria concentrar toda a minha atenção numa questão maior, não apenas nessa. Para mim, o tema são os muros mentais que construímos à nossa volta.
Não queria falar apenas de homossexualidade. Queria mostrar todos os complexos que carreguei comigo depois de viver 50 anos no Irão, uma ditadura religiosa. Queria enfrentar esses complexos e prestar atenção àquilo que eles fizeram dentro de mim.
Acho que o filme não é realmente sobre homossexualidade. É sobre as crenças religiosas, sobre os muros que elas criam, e sobre aquilo que essas crenças deixam nas pessoas.
As personagens já não estão no Irão. Estão na Europa, onde supostamente deveriam ser mais livres. Mas a comunidade continua a ser muito forte, quase como um Estado dentro de outro Estado.
Sim. Mesmo no Ocidente, esses muros mentais existem, ainda que de outras formas. Têm a ver com o passado, com as memórias, com aquilo que as pessoas tornam tão grande que quase não se pode tocar, porque passa a ser sagrado para elas.
Quando fui viver para Berlim, percebi que os alemães são muito sensíveis em relação ao seu passado. Têm medo de que os estrangeiros que chegam ao país destruam os seus valores, valores que foram construídos a partir dessa memória. Às vezes falam do passado como se, há 50, 60 ou 100 anos, a Europa tivesse sido uma espécie de paraíso.
E, por vezes, falam dos seus problemas como se todos tivessem começado quando o país se tornou mais multicultural, quando várias culturas começaram a chegar. Acho que também os ocidentais construíram os seus próprios muros a partir das memórias.
No filme, vemos isso na personagem da Margot, interpretada pela Nastassja Kinski.
Uma das figuras mais interessantes do filme é o imã. Ele não representa apenas a religião, porque há também a ligação aos negócios. A sua presença vai além do religioso e espiritual.
Se alguma vez for ao Médio Oriente, verá que as maiores mesquitas estão quase sempre junto dos bazares. Porque é que não constroem as mesquitas fora das cidades, longe dos centros comerciais? Porque a religião sempre teve uma relação muito próxima com o dinheiro.
Posso dizer, pelo menos em relação ao Islão, que ele não interfere apenas nos assuntos pessoais, mas também nos assuntos financeiros. Não é apenas espiritual ou religioso. O capital também entra na mesquita.
Quando fala dessa relação entre religião, bazar e dinheiro, está também a falar de capitalismo dentro da religião?
Sim. Não é apenas espiritual ou religioso. O capital também entra na mesquita.
Hoje, no Irão, diria que cerca de 98% dos negócios são feitos por pessoas religiosas, e há sempre justificações religiosas para isso. A religião não interfere apenas na vida íntima das pessoas, interfere também nos assuntos financeiros.
Por isso, no filme, vemos o dinheiro na caixa de donativos e ouvimos falar da venda do restaurante. Não é uma questão separada da religião. Em muitas regras islâmicas, ao lado da norma espiritual, existe também uma norma sobre dinheiro. A religião e o negócio caminham juntos.

Falemos da relação entre os dois irmãos. Como construiu a personagem do irmão mais velho? Ele parece mais aberto ao que está a acontecer, e a mulher também.
Está mais aberto à situação porque foi quem sofreu mais. Ouvimos a mulher dizer que estão casados há cerca de 22 anos, mas que talvez não tenham tido sexo sequer 20 vezes.
Ele carregou esse peso durante mais tempo do que o irmão mais novo. Viveu sob uma identidade diferente. Não viveu a sua própria vida. Por isso quer alcançar uma espécie de clareza e ajudar o irmão a não ter uma vida igual à dele.
Há uma conversa muito intensa entre a Leyla e o irmão mais novo, quando ele diz que ela não compreende o que ele sente, e ela explica que compreende de outra forma. Aí regressamos também à condição da mulher. Era importante mostrar essa ligação?
Sim, porque a Leyla também teve a experiência de viver sob outra identidade. Ela também não viveu a vida que queria.
Viver sob uma identidade diferente não é algo que diga respeito apenas às pessoas homossexuais. No Médio Oriente, as pessoas habituaram-se a viver dessa forma. Criaram outras identidades para si próprias e vivem assim.
Um exemplo simples: no Irão, até há poucos anos, as mulheres não usavam lenço dentro de casa, mas quando saíam cobriam o cabelo. Habituaram-se a ter uma vida dupla. De certa forma, toda a gente vive uma vida dupla.
Essa vida dupla tornou-se normal. Em casa, em festas, as pessoas fazem piadas sobre os líderes e as autoridades, até os insultam. Mas, no dia seguinte, por necessidade, podem participar nos seus eventos.
Isto também tem uma raiz religiosa. No Islão existe algo chamado taqiyah. Significa que, se nos sentimos em perigo, podemos mentir. Somos autorizados a mentir. Se estamos sob pressão, podemos encontrar explicações para tudo. Isso produz vidas duplas.
Hoje podemos ser inimigos de Trump, e daqui a um mês jantar com ele em Teerão. O Islão dá permissão para isso. Há regras para tudo.
O filme passa-se na comunidade turca, mas Leila vem do Kosovo e tem um canal ou programa no YouTube. Por que decidiu fazê-la YouTuber?
Porque é algo muito atual, muito ligado ao nosso tempo. Ela quer exprimir-se, mas não consegue fazê-lo com o marido ou com a família. Então encontra uma abertura, uma forma de se expressar e de ser ela própria.
É também por isso que as mulheres do Médio Oriente estão entre as que mais usam cosméticos. Se uma mulher consegue expressar-se dessa forma, parecer como deseja parecer, talvez não precise de encontrar outras formas de expressão.
A Leila encontra essa possibilidade no YouTube. Torna-se blogger, youtuber, mostra-se a cozinhar, mostra que pode ser feliz. Mesmo diante da câmara, vê-se que ela toca em si própria. Segundo certas regras do Islão, uma mulher só deveria fazer isso para o marido. Mas ela está a fazê-lo para outras pessoas.
Às vezes, sentimos que, se ela ainda não seguiu outro caminho ou não traiu o marido, é talvez porque tem medo daquela comunidade.
Numa versão anterior do argumento, a Leila saía de casa e tinha uma relação com outro homem. Depois percebemos que a comunidade em Berlim não é assim tão grande. Se ela fizesse isso, descobririam muito rapidamente. Então decidi trazer o YouTube para o filme.

Voltando aos irmãos, há também a figura do pai. Eles não conseguem confrontá-lo. É como uma barreira.
Porque o pai acredita verdadeiramente no imã. Não se consegue confrontar alguém que acredita totalmente.
Todos vimos o ISIS. Nada parecia capaz de os confrontar. As religiões têm, por vezes, esse potencial de transformar as pessoas em adoradores. A pessoa torna-se alguém que apenas recebe ordens de uma entidade superior.
O pai está neste lugar. É um adorador. Pode-se ser adorador ou imã. Ele recebe as ordens do imã. Esse é o sistema islâmico.
O Jafar Panahi é produtor e montador do seu filme. Como é trabalhar com ele?
Conhecemo-nos há cerca de dez anos. Desde então, tornámo-nos quase família, muito próximos, e colaborámos em muitos projetos e situações.
Nos últimos dez anos, fizemos sete filmes: três filmes dele, três meus e um filme realizado pelo filho dele.
Mesmo quando não estávamos a filmar, pegávamos no carro dele e viajávamos pelo Irão. Percorremos o país à procura de novas histórias. Esses sete filmes nasceram dessas viagens e dessas conversas dentro do carro.
Depois dividíamos os papéis. Ele tornava-se uma personagem, eu tornava-me outra, e ao longo do caminho íamos falando sobre a história, representando os papéis.

