Liliane Mutti sobre “A Noite de Alaíde”: “Cada filme para mim é uma tese, uma visão e principalmente, um projeto de mundo”

"A Noite de Alaíde" estreia em Portugal e no Brasil a 16 de julho

(Fotos: Divulgação)

Um pé no Brasil, com o coração na sua Bahia natal, e outro em França, sempre com o olhar voltado para um cinema sem fronteiras: esta é a realidade geográfica de Liliane Mutti, na vida e no ecrã. Conhecida por Salut, mes ami.e.s ! (2023) — filme sobre o rito de passagem da juventude, ambientado no liceu CIEP 449, de Niterói — e por Madeleine à Paris (2024) — focado no performer Roberto Chaves, o Robertinho —, esta artesã das artes documentais lança agora uma nova longa-metragem, A Noite de Alaíde, no seu país, enquanto prepara caminhos para a estreia na Europa. Revisita, nesta narrativa, uma deusa do cancioneiro da sua pátria. Alaíde Costa não precisa de quem fale por ela, pois bastam alguns acordes para este rouxinol do bairro do Méier comprovar o que fez com a canção brasileira, aveludando fraseados de puro lirismo.

A Noite de Alaíde — um dos títulos que encerraram o 28.º Festival du Cinéma Brésilien de Paris, em abril — dispensa as estratégias de “verbete de Wikipédia” comuns às narrativas biográficas brasileiras. Deixa a sua protagonista libertar o que tem de mais divino: a voz. A solução encontrada por Liliane Mutti para dar à cantora uma ribalta cinematográfica mais original do que o padrão da nossa não ficção foi aplicar uma linguagem de animação a sequências pautadas pela emoção. Ao animar situações do passado da intérprete de “Afinal”, recriando factos das décadas de 1940 e 1950, a realizadora baiana consolidou um exercício híbrido de expressões poéticas em movimento.

“Fiz um mestrado em Estudos de Género, investigando, a partir de Clarice Lispector, o cinema queer e o feminismo radical, na universidade onde estudaram Lacan, Foucault e Deleuze. Recentemente, decidi regressar ao doutoramento, em Cinema, na UFBA. Sinto tudo em diálogo. Cada filme, para mim, é uma tese, uma visão e, principalmente, um projeto de mundo”, explica Liliane ao C7nema.

Na entrevista que se segue, analisa como é produzir entre dois continentes.

Quem era Alaíde Costa, para si, antes de filmar, e em quem se tornou após o filme?

O processo de descoberta da personagem, na sua profundidade, fez com que pensasse bastante sobre a construção da timidez. Esta característica é muitas vezes associada à sua personalidade, mas a trajetória de Alaíde coloca-nos perante um caso de racismo estrutural, em que o silêncio, para o outro, é naturalizado, mas, para ela, surge sob a forma de grandes e microviolências, muitas delas veladas. A timidez aparece em vários momentos do filme, e a própria Alaíde compara-se a Milton Nascimento, outro tímido crónico. Recentemente, Djavan falou sobre a timidez na sua condição de homem negro. Mesmo que não de forma direta, vejo a timidez em Alaíde como as “mascaradas” do feminismo, que, no quotidiano, se traduzem num agir dissimulado para sobreviver. Isso é muito comum quando a mulher se diminui, muitas vezes profissionalmente, para não “ameaçar” o companheiro. No caso de Alaíde, ela não fez concessões profissionais e pagou um preço elevado por isso, inclusive na sua condição de mãe, casada com um homem branco, como veremos no filme. Isso aparece de forma discreta, como é próprio da maneira de ser de Alaíde Costa.

A Noite de Alaíde encerrou o Festival de Cinema Brasileiro de Paris. De que forma responde a Europa, na receção em França, às personagens brasileiras que retrata?

Tenho seguido um caminho de contracorrente no cinema brasileiro, mas tenho notado que não estou sozinha. Há alguns colegas cineastas da minha geração que seguiram esse caminho. No meu caso, esta internacionalização foi quase uma imposição após o golpe contra a Dilma, a primeira mulher a presidir ao Brasil. Como cineasta feminiSTA, tornou-se irrespirável trabalhar no Brasil. Quando o país retomou o seu rumo, com o regresso do Ministério da Cultura, voltei à Bahia e agora passo o ano entre lá e França, porque tenho muitos compromissos no Brasil, das filmagens ao meu doutoramento sobre cinema franco-brasileiro na Universidade Federal da Bahia. Atualmente, tenho duas casas que funcionam como incubadoras dos filmes, porque, em Paris, somos praticamente uma embaixada informal do Brasil. Em Salvador, recebemos muitos parceiros de todo o mundo. O momento em que me apercebi desta forma de fazer cinema entre países foi quando a curadora e produtora Ilda Santiago, no Festival do Rio, apresentou a minha longa-metragem sobre Miúcha ao público do Cine Odeon e se disse surpreendida por ter tido o primeiro contacto com o filme nos bastidores de Cannes, em 2022. Ali, acabou por se tornar natural que a França seja sempre a nossa primeira plateia, incluindo a diáspora brasileira no país.

De que maneira a animação se mostrou uma estratégia narrativa para o projeto?

A animação foi uma escolha estética, afetiva e de produção. A ausência objetiva de arquivos da infância de Alaíde, nas décadas de 1930 e 1940, e até da sua adolescência e do início da carreira, na década de 1950, motivou-nos. A pesquisa do filme começou no auge da crise da Cinemateca Brasileira, quando ocorreu o incêndio. Nessa altura, nós, que trabalhamos com cinema de arquivo, perguntámo-nos como seria o ofício dali em diante. Ao contrário de Miúcha, outra personagem da realizadora e também cantora, filha do historiador Sérgio Buarque de Holanda, Alaíde tinha poucas fotografias da infância e da juventude. Encontrámos apenas duas fotografias de Manuela, a sua mãe. Este facto coloca-nos perante o apagamento objetivo da história das mulheres negras e expõe como a memória, no Brasil, se tornou um fator de privilégio. Bem, precisava, então, de reconstruir esta história. Tinha trabalhado em Miúcha com dois animadores brasileiros radicados em França: Meton Joffily e Guilherme Hoffmann, um mago da rotoscopia, técnica que já tinha experimentado ao animar as aguarelas do filme sobre Miúcha. Convidei, então, Guilherme para esta missão e passámos um ano a estudar técnicas de 2D, porque queria usar cenários reais, com locais de filmagem em São Paulo, cidade onde Alaíde vive e onde fundou a Bossa Nova paulista. Era também, em 2023, o momento em que a França procurava recriar a animação aplicando uma única cor às personagens. Trouxe essa influência e aplicámos cores aos ambientes reais a partir da emoção das personagens.

Qual seria a razão afetiva?

A razão afetiva é que este é o meu quarto filme, e os meus filhos queixam-se muito de que os pais — o meu marido, Daniel Zarvos, também é cineasta — só fazem filmes para adultos. Daí ter pensado em A Noite de Alaíde como um “filme para a família”, embora um tanto anti-Disney. Funciona bem para pré-adolescentes, como os meus filhos, verem com os pais e terem uma boa conversa depois da projeção.

Em que momento da sua carreira Paris se tornou uma base de produção e que opções existem para quem faz coproduções aí?

Filmo o Brasil e acho pouco provável que isso mude. Tenho projetos em curso com França e Portugal, mas são personagens brasileiras, como a carioca Maria D’Apparecida, cantora de ópera que substituiu Maria Callas na Ópera de Paris, cantando Carmen. O que a França acrescenta ao meu trabalho é, fundamentalmente, o som dos filmes. Costumo ser fiel às equipas com as quais trabalho. Fechámos com o francês Pierre-Yves Gautier, que, de tanto ver o Brasil nos ecrãs, tirou férias este ano e viajou para lá. A outra base dos filmes, que criou um fluxo de trabalho com França, é a animação. Há uma forte escola de animação nos Gobelins e, nos Alpes franceses, o Festival de Annecy, onde estivemos este ano, tornou-se um polo da animação. Acabo por beber dessa fonte.

Como se firmou o documentário musical como um veio do seu trabalho?

Venho da televisão, que foi a minha escola prática e me deu um sentido de urgência muito grande. Há histórias que precisam de ser contadas e, nesse lugar, fazemos com as ferramentas que tivermos. É por isso que o documentário me atrai. Mas, no fim, tudo é filme. Se formos à semântica do verbo “documentar”, uma ficção biográfica documenta muitas vezes uma vida, claro, sempre a partir de algum ponto de vista, como no caso recente do filme sobre Michael Jackson. Foi a própria Alaíde quem melhor definiu, para mim, A Noite de Alaíde: “É uma fábula!” O filme reúne histórias fabuladas a partir da biografia Faria Tudo de Novo, de Ricardo Santhiago. Para transformar a escrita em imagens em movimento, o autor deixou-me muita liberdade para recriar esta história e trazer situações de inspiração livre, como a saída do pai de Alaíde de casa. Este filme tem um elenco incrível, que vestiu a camisola desta experiência. Cada um trouxe a sua pesquisa pessoal e sobre as respetivas personagens, como João Gilberto, Baden Powell, Moacir Santos, Tom Jobim e tantos outros, que transformaram esta obra num encontro. Mal posso esperar por voltar a filmar com estas atrizes e estes atores.

Quais são os seus próximos projetos? Quando estreiam?

Este ano promete ser animado. Espero que A Noite de Alaíde chegue às salas nos próximos meses, no Brasil, em Portugal e noutros países, como França, onde estamos em plena negociação. Em outubro, estreamos no Rio o filme Quanta Reza Será Preciso para um Simples Banho de Mar, no Festival Internacional de Cinema Ambiental. É um filme fantástico sobre a construção da ponte Rio–Niterói durante a ditadura militar brasileira. Teremos uma sessão para convidadas e convidados em dezembro, na Sala Nelson Pereira, em Niterói. Em paralelo, continuo a lapidar um filme sobre a cantora Angela Ro Ro, com lançamento previsto para 2027. A montadora Tatiana Gouveia, que vive entre Sevilha e o Rio, tem trazido novos arquivos, que continuamos a explorar para afinar a montagem. O filme sobre Ro Ro tem agora 2h33, e tenho tido muita dificuldade em encurtá-lo. Já chegou a ter 3h, à la Frederick Wiseman, o meu eterno mestre. Pergunto-me: se cortar o filme, o que acontece à história de Angela? Mas estarão as pessoas, tão bombardeadas por vídeos curtos, dispostas a entrar numa sala de projeção para ver 2h30 de cinema e música? Espero que existam mais loucas como Ro Ro que embarquem nesta viagem.

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