Carlos Therón: “O humor está em perigo”

(Fotos: Divulgação)

Carlos Therón esteve em Lisboa para apresentar no Cine Fiesta o seu É Só Querer (Lo Dejo Cuando Quiera)

Vencedor como produtor de dois Goya – em 2006 pela Melhor Curta Documental (En la cuna del aire) e 2009 de Melhor Curta de Ficção (por Miente de Isabel de Ocampo) – Carlos Therón é um dos cineastas espanhóis atualmente mais requisitados no campo da comédia depois de em 2017 ter tido um enorme sucesso nas bilheteiras com Es Por Tu Bien.

Em 2018 conheceu novamente o sucesso com É Só Querer, um remake do filme italiano Paro Quando Quiser – Génios à Rasca (Smetto quando voglio, 2014), que chegou perto dos dois milhões de espectadores e receitas bem acima dos 10 milhões de euros.

Presente em Lisboa para apresentar esta comédia sobre três homens desiludidos com a vida que embarcam no negócio de vender droga – com bastante sucesso -, Therón falou ao C7nema do que o levou até ao filme, do seu próximo projeto, também ele um remake de um filme italiano, e do desejo em filmar um trabalho de terror. Quanto ao futuro, não diz não a Hollywood, mas não vive obcecado com isso.

Depois de ter trabalhado com sucesso com a Telecinco em Es por Tu Bien, o realizador foi convidado a adaptar Paro Quando Quiser – Génios à Rasca a um registo mais em conta com o cinema espanhol. E ao contrário de Perfeitos Desconhecidos, de Álex de La Iglesia, que é uma nova versão de Amigos, Amigos, Telemóveis à Parte, É Só Querer distingue-se do filme original pelo seu tom, claramente de comédia espalhafatosa e com momentos bem “puxados” que se afasta do tom cómico, mas mais de suspense do trabalho original. Therón contou-nos que só viu o original uma vez e juntamente com os argumentistas “trouxeram o filme para o seu lado, convertendo a história na sua versão“.

O filme italiano explorava mais o thriller com a venda de drogas, nós quisemos mais focar-nos nas personagens imbecis, explorar a comédia num campo mais negro. Estes tipos metem-se a vender drogas, eu tinha de mostrar isso como algo mais perigoso, obscuro“, disse-nos o realizador, que acredita que vivemos tempos em que “o humor está em perigo“, até porque qualquer piada “pode deixar alguém ofendido“: “Está a criar-se um mundo em que a autocensura faz parte do dia a dia, em que tu mesmo não fazes piadas com medo de ofender alguém“. Por isso mesmo, ele afiança que a sua comédia “explora certos limites” para contrariar essa tendência. E os resultados nas bilheteiras confirmam: “Há um público para este humor pesado“.

Um bando de imbecis a vender droga

Para contar a história de três amigos “marrões” que só queriam estudar na faculdade e que por isso perderam as festas e o convívio, mas que dez anos depois decidem usar os seus conhecimentos universitários para colocar a circular uma droga que rapidamente se torna um sucesso, Therón e os produtores chamaram três atores bastante distintos no panorama espanhol: Ernesto Sevilla, Carlos Santos e David Verdaguer.

Carlos Santos já conheciamos  e há dois anos atrás até falamos com ele quando marcou presença no filme O Homem das Mil Caras [ler entrevista]: “O Carlos é muito trabalhador, muito metódico e procura sempre fazer coisas diferentes. É pura energia, nunca está quieto. O complicado aqui é encaixar todos os atores no grupo, para que funcione. O Carlos é explosivo, o Ernesto é mais tranquilo, embora tenha rasgos cómicos e volte ao registo calmo e calado. Quem equilibrava o grupo era David, que tinha a personagem de Pedro“.

Uma das estratégias do cineasta para encontrar esse equilibrio no grupo foi aproveitar as sequências em automóveis para os deixar à vontade e improvisarem, funcionando assim como uma equipa: “Nas cenas nos carros, em que estão todos, existem sempre imensos tubos e fios por causa das filmagens, então eles estão presos na viatura e são obrigados a improvisarem e a se relacionarem“, explicou Therón, admitindo que gosta da improvisação, embora filme também sempre uma versão exatamente como está no guião.

Um novo projeto, novamente um remake de um filme italiano

Em equipa que ganha não se mexe, diz-se no futebol, mas no cinema também é assim. Depois do sucesso de É Só Querer, Therón vai embarcar numa nova versão de Song é Napule (2013), também um registo cómico, mas que o cineasta diz que vai ter um humor mais ligeiro que o seu filme anterior : “Este projeto está em desenvolvimento desde 2013, mas foram passando os anos e a Telecinco preferiu filmar primeiro o É Só Querer e só depois o Operación Camáron“.

Terror no futuro

Depois das duas refilmagens, o cineasta nascido em Salamanca tem a ambição de sair do género e entrar em registos como o terror. “Talvez um filme que comece como comédia e termine no terror“, diz-nos, mostrando que apesar deste género ter exportado inúmeros cineastas espanhóis para os EUA (Aménabar, Jaume Collet-Serra, etc), essa mudança para o outro lado do Atlântico não é uma obsessão. “Creio que o terror e a comédia têm pontos em comum, na medida em que apresentas um problema e vais solucionando-a de forma surpreendente“.

Therón admite ainda trabalhar numa série, talvez para uma dessas novas plataformas, como a Netflix, que tem apostado bastante no mercado espanhol. Ainda assim, o cineasta diz que que prefere ver cinema numa sala, embora perceba que muitos gostem de ver em ecrãs pequenos. “Já apanhei miúdos a ver o meu filme nos transportes em smartphones (…) Preferiria que não fosse assim, mas não posso lutar contra isso“, lamenta.

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