Numa era em que se discute se a Inteligência Artificial será capaz de replicar as características humanas consideradas abstratas como a consciência e, num espectro mais alargado, o funcionamento da mente (num sentido mais alargado do que cérebro, redes neurais, inteligência, memória e processamento de dados), Alexandros Avranas e a sua quinta longa-metragem, “Quiet Life”, parece nos querer mostrar que essa transformação já começou nos próprios humanos, os quais, numa alegada ética que evoca transparência e justiça, independente das realidades subjetivas, começou a afastar sentimentos e qualquer princípio de empatia na tomada de decisões e nos respetivos trâmites legais.

A história que o realizador e argumentista de “Miss Violence” nos traz é a de muitos que procuram asilo num país “seguro”. Uma família, Natalia (Chulpan Khamatova) e Sergei (Grigoriy Dobrygin), mais duas filhas, Katja (Miroslava Pashutina) e Alina (Naomi Lamp), enfrentam as burocracias do estado sueco para conseguir asilo no país, isto depois do homem, um professor, ter sido espancado e perseguido na Rússia por divulgar às suas turmas textos proibidos. 

Desde os primeiros planos, que o cineasta nos apresenta, somos levados para espaços rigorosos, criteriosamente simétricos e higienizados para ficar bem na fotografia, como se alguém tentasse replicar um padrão numérico gigantesco a partir da memória, sem falhas. Do retrato da família que se quer “perfeita” para impressionar os avaliadores, ao frigorífico cheio de comida “saudável”, ao jantar que parece delicioso, Avranas mostra rapidamente ao que vem: uma padronização IKEAquiana da perfeição minimalista da sociedade ocidental. 

Fase atrás de fase desse processo de pedido de asilo é trabalhada pelo cineasta minuciosamente, com a automatização robótica de todo o sistema e das pessoas que lá trabalham, num ato pleno de obediência que deixaria Milgram pasmado, sempre imbuída numa atmosfera de sátira negra dramática que politicamente parece ter algo de escandaloso a nos dizer: talvez os campeões da tão vangloriada social democracia europeia, os países nórdicos, mais concretamente a Suécia, se estejam a tornar numa antissocial democracia, em que não há pessoas, mas números de processo, e não existem sentimentos e seres sencientes a serem avaliados, mas conjuntos de parâmetros rígidos a precisarem de validação para um bem maior, longe de quaisquer subjetividade.

É nesse contexto, do passar fases no processo de asilo e na ansiedade e stress que isso provoca, que é introduzida, através de uma das filhas do casal, o Síndrome de Resignação Infantil, uma condição psiquiátrica (cientificamente não validada, mas reportada em centenas de casos), com o seu quê de “Banzo”, já que as vítimas, principalmente crianças e adolescentes, deixam de responder e entregam-se a uma letargia comatosa e catatónica. Mas se no Banzo o que comandava era o sentimento de melancolia e saudade em relação à terra natal, além da aversão à privação da liberdade nos tempos da escravatura, agora é o medo do refugiado em ver rejeitado o pedido de asilo e ter de regressar ao sítio onde viveu o trauma que o leva a dessintonizar-se da realidade.

Resquícios de solidariedade ainda povoam neste filme e servem de contraste a um sistema social que se quer rigorosamente perfeito (o que quer que isso signifique), e que nessa busca da perfeição chama à equação outras entidades que se aproveitam do que o estado legisla, para fazerem negócio com terapias com mais doses de New Age que ciência propriamente dita. Avranas retrata isso com um humor muito obscuro, assaz vezes sórdido, colecionando sorrisos obrigatórios que servem de vaselina à turbulência interna e às más notícias que se querem dar. E esses sorrisos e conexão entre os que pedem asilo e os que o validam tornaram-se um padrão algorítmico, fazendo lembrar os críticos da antiga líder neozelandesa Jacinda Ardern, que no meio de qualquer desgraça ou decisão impopular mantinha o sorriso, numa estratégia de comunicação para criar empatia, mesmo quando “lixa” a vida de alguém. Esses detratores arranjaram-lhe mesmo uma alcunha, a “assassina do sorriso”, e todos aqueles do sistemade validação do asilos político que por aqui encontramos parecem seguir rigorosamente esse requisito funcional.

Um último destaque para as interpretações contidas, mas expressivas no núcleo familiar, em particular de Chulpan Khamatova e Grigoriy Dobrygin, que entre bizarrias processuais nos agarram do início ao fim do filme enquanto caminhamos sobre uma corda em chamas que é o seu volátil percurso. Um filme enorme a sair da secção Orizzonti do Festival de Veneza!

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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