Exatamente duas décadas depois de ter oferecido ao cinema dos anos 2000 uma de suas mais precisas bússolas amorosas (o seminal “Lost in Translation”), Sofia Coppola segue na trilha dos encontros e desencontros do querer – quase sempre num embate de géneros, nas franjas da dinâmica sexista – utilizando os bastidores de um mito masculino, Elvis Presley, para fundar uma mitologia feminina a partir da jovem Priscilla Ann Beaulieu.

A História, mediada pelo pop, deu a ela um epíteto: a mulher (depois, a viúva) de Elvis, a Senhora Presley. Amparada numa interpretação de fôlego de Cailee Spaeny, coroada com a Copa Volpi de Melhor Atriz no último Festival de Veneza, Sofia consegue retirar Beaulieu desse espectro, explorando a sua jornada de sobrevivência (existencial) sob os holofotes globais. Não se trata de uma resposta indie ao colossal “Elvis”, de Baz Luhrmann, ovacionado em Cannes, em 2022, mas, sim, de uma expedição a um mesmo abismo: a depressão funda da toxidade.

Com base no livro “Elvis and Me”, de Sandra Harmon e de Priscilla, a vencedora do Leão de Ouro de 2010 (pelo esquecido, porém, precioso “Somewhere”) constrói um roteiro sinuoso, no qual dilemas afetivos e opressões familiares lapidam a psique de uma jovem que se apaixona por um titã cedo demais. Cailee monta uma atuação discreta, repleta de conflitos internos, a fim de traduzir as inquietações de uma adolescente que se torna objeto no olhar de um sol, o astro rei do rock’n’roll. Assim como fez no thriller “The Beguiled” (pelo qual recebeu a láurea de Melhor Realização de Cannes, em 2017), a cineasta promove uma vertiginosa reflexão sobre modos de mobilização das mulheres, pintando um retrato da masculinidade a partir da sua esfera mais imatura.

Sucesso de bilheteiras nos EUA, tratado como aposta para o Oscar 2024, “Priscilla” emprega 1h53 minutos magistralmente fotografados por Philippe Le Sourd (parceiro de Sofia no subestimado “On The Rocks”) para acompanhar a estratégia de sedução a qual a jovem Bealieu é submetida. De um lado, existe o fascínio com o luxo e a riqueza; do outro, existe o encanto de ser a “preferida” de uma majestade cultural. As aspas ao lado traduzem o mal-estar que Sofia busca ressaltar ao longo da sua narrativa ao expor o quanto a sua protagonista é tratada como um fetiche por uma estrela cheia de inseguranças, longe da maturidade e afogado em drogas. A Priscilla de Cailee trafega por barbitúricos, ostentação, armas, abusos psicológicos, falta de sexo e desdém. Mas Sofia Coppola nunca a trata como heroína passiva, encastelada, secundária de um esposo arbitrário. A sua Priscilla é uma borboleta em busca da saída de um casulo mediático. O seu bater de asas, mesmo emparedada pelo sufoco imposto por Elvis, ensaia uma exegese da liberdade, uma busca por equidade.

Trata-se de um manifesto feminino, doído, mas avassalador.

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Rodrigo Fonesa
priscilla-as-sombras-que-o-sol-encobrePriscilla é uma borboleta em busca da saída de um casulo mediático. O seu bater de asas, mesmo emparedada pelo sufoco imposto por Elvis, ensaia uma exegese da liberdade, uma busca por equidade