Existe uma expressão utilizada pelo Freddie Mercury de Rami Malek, em “Bohemian Rhapsody” (2018), que traduz parte do que o sinestésico “Elvis“, de Baz Luhrmann, exibido fora de concurso em Cannes, é, nos seus frenéticos 2h29 minutos, capazes de gerar a vertigem no espectador. O vocalista dos Queen diz, a certo ponto do seu biopic, que a razão de se afundar nos excessos são os “inbetween moments” entre os processos criativos, as paixões e os espetáculos, ou seja, a zona do deserto, do marasmo e da inércia.

Falta uma imersão nesses tais “inbetween moments” no novo filme do realizador de “Moulin Rouge” (2001), o qual é uma espécie de “abertura do Mar Vermelho” no cânone do musical, dando ao género o caminho da pós-modernidade.  “Rocketman“, exibido na Croisette em 2019, era feito dessas “interseções”, desses “tempos de transição”, vagos, na vida de Elton John. E era dessas crateras existenciais que ele retirava a sua vitalidade. Luhrmann prefere tirar o seu vigor do próprio pop… e de si mesmo.

A sua nova longa-metragem é uma afirmação plena do seu estatuto de autor, numa súmula de tudo o que ele vem a fazer desde “Strictly Ballroom“, há 30 anos, quando se deu conta da relevância do cinemático na estrutura de um audiovisual cada vez mais loquaz e palavroso. Esse entendimento tornou o seu cinema elétrico, mesmo quando retoma as chaves do cinema clássico, como fez na sua obra-prima incompreendida, “Austrália“, de 2008. Mas a sorte pode sorrir para o seu novo exercício. Eletrizante do começo ao fim, energizado por uma montagem supersónica, cheia de vinhetas e efeitos de animação, “Elvis” transpira Baz Luhrmann, sendo uma espécie de “Moulin Rouge” do rock’n’roll a 220 volts, numa afirmação do seu realizador, mas que abre ainda deixas para louvar o soul, o beebop, a country music e o gospel.

Toda a raiz musical de Elvis Presley (1935-1977) é revisitada pelo cineasta australiano nessa cinebiografia que foi ovacionada (de pé) durante nove minutos na sua passagem pelo 75º Festival de Cannes. O seu Elvis, Austin Butler, está radiante em cena, sem o fardo de mimetizar o Rei do Rock. O que lhe importa é a essência de Presley, a sua destreza, rebeldia e espírito, um pouco de forma similar àquela que o já citado Rami Malek atuou como Freddie Mercury. Não é um cinema de psicografia, é recriação. E quem mais brilha nesse processo é o próprio Luhrmann, que aplica os procedimentos irrequietos da sua obra pop.

Claro que já se fala em nomeações ao Oscar para o realizador, para Butler e, sobretudo, para o trabalho de Tom Hanks, que aparece cheio de maquilhagem em cena, no papel do empresário do cantor: o Coronel Tom Parker (1909-1997). É a partir do calvário de Parker que o filme é narrado, apoiando-se na mais inspirada atuação de Hanks em anos.

Uma das referências assumidas pelo cineasta australiano foi o filme “Amadeus” (1984), que rendeu o Oscar ao checo naturalizado americano Milos Forman (1932-2018), narrando a rivalidade entre o jovem Mozart (Tom Hulce) e o seu suposto mestre, Salieri (F. Murray Abraham). Há uma estrutura similar na maneira como Parker explorou Elvis, levando-o a crises nervosas ao fazer de tudo para impedi-lo de viajar e quebrar contratos com um casino de luxo em Las Vegas. Uma Las Vegas que por sua vez parece um macrocosmos na direção de arte de Karen Murphy e Catherine Martin, fotografada em luz rebuscada por Mandy Walker.

Existem limitações de guião que empobrecem a força do filme, para além da sua dimensão de espetáculo, fora o retrato por vezes raso de Presley. Uma delas é inabilidade de Luhrmann (já presente em “Get Down)” em mapear os vetores políticos do mundo que lhe serve de arena, havendo uma contextualização quase pífia dos conflitos da Guerra Fria, período em que Elvis desponta como ídolo. A outra é o tratamento quase microscópico dado à sua carreira no cinema. Os seus sucessos são mencionados sem demoras e sem o cineasta conseguir dialogar com a pirosice de “Girls! Girls! Girls!” (1962), para citar um de seus títulos mais populares, ou com a dimensão ultrarromântica de “Fun in Acapulco” (1963), com o qual o cantor ficou associado a um perfil de crooner de baladas para rasgar o coração. Existe ainda uma incómoda sensação de que as figuras afetivas que cruzam o seu caminho, com exceção do Coronel Parker, são meros objetos para a estrutura de reconstituição histórica do realizador. Ok, tudo é visto pelo prisma de Parker, mas ele percebeu a importância de Priscilla, de Lisa Marie e dos demais parentes do rouxinol do rock ‘n’ roll. Luhrmann é que não quis valorizar essa perceção.

Imperfeito mas imperdível, “Elvis” acaba por sobreviver impondo-se como a montanha-russa sensorial que é. E Hanks renova-se, mais uma vez, numa verdadeira empreitada pelo real.

Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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