Tsai Ming-Liang ocupa a Tabakalera em Donostia

O cineasta apresenta Weichen / Dust e leva à Tabakalera uma exposição construída a partir da série que acompanha Lee Kang-sheng pelas cidades do mundo.

Com carta branca do centro de artes Tabakalera, Tsai Ming-liang passa por San Sebastián não apenas para apresentar um novo filme (com alma de videoarte), Dust (Weichen), mas também para ocupar um edifício inteiro, convidando o público a fazer aquilo que o seu cinema pede há mais de três décadas: parar, respirar e voltar a aprender a caminhar. Coroado em 2025 com o FIPRESCI 100 Lifetime Achievement Award, o malaio radicado em Taiwan traz até Donostia a exposição Walker, um projeto coproduzido pelo festival, onde permanecerá patente até 6 de dezembro.

A intervenção cultural coincide com a apresentação do mais recente capítulo da série de médias e longas-metragens Walker, que vem circulando por festivais como a Berlinale. A mostra reúne três peças audiovisuais — No Form (2012), Walker (2012) e Journey to the West (2014) — que condensam uma das pesquisas formais mais radicais do realizador asiático, o de transformar a lentidão num gesto cinematográfico e político. Em vez da aceleração das grandes cidades, Tsai propõe uma experiência de contemplação, acompanhando o corpo do ator Lee Kang-sheng enquanto atravessa espaços urbanos num ritmo quase impercetível.

“Dust” é um experimento de Tsai Ming-Liang na Espanha

A origem de Walker remonta a 2011, quando Tsai colaborou com Lee Kang-sheng na peça Only You. Fascinado por uma sequência em que o ator caminhava com extrema lentidão, decidiu transportar esse movimento para o cinema. Nascia então uma personagem recorrente: um monge contemporâneo, de cabeça rapada, pés descalços e túnica vermelha, inspirado na figura histórica de Xuanzang, o monge budista da dinastia Tang que percorreu milhares de quilómetros até à Índia em busca de textos sagrados.

“A partir de 2017, passei a expressar-me através de modelos de captação de imagens que não me permitem fazer grandes planos e outras conjugações dos verbos cinematográficos clássicos, mas me permitem fazer descobertas no terreno da textura”, disse Tsai ao C7nema, em Berlim. “É um futuro possível. Para chegar a ele, preciso de preservar o passado. Preciso de manter os meus filmes de ontem vivos.”

Mais do que uma referência religiosa, Xuanzang torna-se para Tsai um símbolo de introspeção. O monge observa o mundo caminhando quase imóvel, como se cada passo suspendesse o tempo e obrigasse a cidade a revelar detalhes invisíveis ao olhar quotidiano. Desde 2012, essa figura percorreu dez cidades e deu origem a doze obras, passando por Taipei, Hong Kong, Marselha, Tóquio, Paris, Washington D.C. e, agora, San Sebastián. Weichen / Dust, rodado em Donostia durante o verão de 2025, prolonga essa geografia da lentidão ao integrar a paisagem basca na série.

Ao acolher Walker, a Tabakalera reforça a sua linha curatorial dedicada às zonas de contacto entre cinema e arte contemporânea. A instalação foi concebida especificamente para os espaços do centro cultural, transformando as salas expositivas em ambientes de projeção onde o espectador é convidado a desafiar convenções do próprio olhar.

Nascido em 1957, em Sarawak, na Malásia, Tsai Ming-liang estreou-se na longa-metragem com Rebels of the Neon God (1992), apresentado na Berlinale. Dois anos mais tarde, conquistou o Leão de Ouro de Veneza com Vive l’Amour, consolidando-se como um dos grandes autores do cinema contemporâneo. Vieram depois distinções em Berlim, Cannes, Veneza e Locarno, onde recebeu, em 2023, o Pardo alla Carriera.

O Festival de San Sebastián prossegue até ao dia 26 de setembro.

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