Depois de 15 anos de serviços prestados à autoralidade como diretor artístico de San Sebastián, José Luis Rebordinos deixa o cargo no fim do ano, mas ainda com muito a fazer nos próximos oito dias, agora que a 74.ª edição do festival anual da cidade acaba de inaugurar a sua programação. Numa decisão tomada por unanimidade pelo conselho gestor do evento basco, o pedagogo, curador e programador deixa a direção artística e passa o comando do festival a Maialen Beloki. A decisão satisfaz os seus anseios pessoais. Sob a sua direção, desde 2011, Donostia (nome da cidade na língua local, o euskara) apostou numa linha curatorial capaz de abraçar estéticas de invenção, com direito ao novo Mike Leigh e a um voo de Jesse Eisenberg pela realização. Coube a Fatih Akin, nome forte nas bilheteiras germânicas, inaugurar os trabalhos com o tocante Geister, a correr mundo com o título Ghost Song.
Na entrevista que se segue, Rebordinos explica ao C7nema o que mais e melhor aprendeu ao longo da sua dedicação a San Sebastián.
Um grande festival não é apenas uma seleção de filmes: cria relações culturais, económicas e, de alguma forma, também políticas para uma cidade e para um país. O que é que San Sebastián lhe ensinou sobre esse poder? Até que ponto pode um festival intervir na imagem que uma nação projeta de si própria e na forma como dialoga culturalmente com o resto do mundo?
Ensinou-me que a cultura é uma arma poderosa para o desenvolvimento das sociedades. Serve para que as cidadãs e os cidadãos da cidade onde se realiza um festival, por exemplo, sintam orgulho. Serve também para transmitir uma imagem positiva para o exterior. Ao mesmo tempo, as atividades culturais são importantes motores de desenvolvimento, assim como espaços de encontro e de debate absolutamente imprescindíveis.
San Sebastián sempre construiu pontes muito fortes com a América Latina. Interessa-nos especialmente a relação com a lusofonia. O Brasil, por exemplo, viveu aqui um momento histórico quando Pacificado, de Paxton Winters, conquistou a Concha de Ouro em 2019. Como avalia hoje a relação de San Sebastián com o cinema brasileiro? E que lugar ocupa Portugal nessa cartografia, tanto através dos seus cineastas como de instituições e parceiros como a RTP?
San Sebastián sempre apostou em manter uma forte relação com a América Latina. Não nos podemos esquecer de que temos uma língua em comum, falada por mais de 500 milhões de pessoas. Não se trata apenas de uma relação cultural e política, mas também económica. Somos um mercado único. No entanto, com o Brasil a nossa relação não tem sido tão intensa e tem acontecido de forma mais esporádica. Este ano, por exemplo, temos vários filmes no festival, um deles inclusive na competição oficial. Quanto a Portugal, sempre tivemos uma presença mais fluida e quase sempre houve representação da sua cinematografia nas diferentes secções do Festival.
Vivemos um momento marcado por guerras, deslocações, crise climática, polarização ideológica e endurecimento de fronteiras. Ao mesmo tempo, os festivais enfrentam uma pressão cada vez maior para tomarem posição perante os conflitos do presente. Onde coloca a fronteira entre a independência artística de um festival e a sua responsabilidade política? Pode um festival como San Sebastián permitir-se ser neutral?
San Sebastián é um festival absolutamente neutral quando falamos de partidos políticos. Aqui é bem-vinda uma pessoa que seja progressista, da mesma forma que é bem-vinda uma pessoa conservadora. Mas acredito que os festivais de cinema, que dispõem de um pequeno altifalante, têm de o utilizar para defender os direitos humanos. Por isso, em defesa da cultura e da liberdade, temos de erguer a voz contra este ressurgimento do fascismo que percorre o mundo. E é por isso que nos posicionamos contra o genocídio do povo palestiniano.
Passou uma parte enorme da sua vida a ver cineastas e atores que em tempos foram mitos no ecrã chegarem fisicamente a Donostia. Mas gostaria de deixar por instantes de lado o diretor do Festival e perguntar ao cinéfilo: qual foi o encontro, reencontro ou simplesmente o instante mais comovente que viveu aqui diante de um dos seus ídolos? Houve algum momento em que, apesar de todos estes anos de profissão, voltou a sentir-se simplesmente aquele espectador que amava o cinema?
Sinto-me muitas vezes como um espectador normal quando, de repente, entre a enorme quantidade de filmes que vemos todos os anos, encontro algum que me surpreende e me emociona. Isso continua a acontecer-me muitas vezes. Emocionei-me em mais do que uma ocasião com Prémios Donostia que admiro, como Ricardo Darín, Javier Bardem ou Glenn Close. Também me emocionei muito quando visitei uma pequena escola em Mar del Plata, a EES n.º 37, com a qual colaboramos para que as raparigas e os rapazes adolescentes que ali estudam possam contar as suas histórias através de uma câmara de cinema.

